domingo, junho 06, 2010
mares convergentes
Já passou tempo que o sol deixou de dardejar a Terra com a intensidade que tem feito nos últimos dias. É a sua vital energia que chega até, imprescindível mas para a qual são necessários cuidados e precauções adicionados, agora que surgem efeitos do vandalismo que o ser humano tem cometido sobre a Natureza.
Mas nesta altura já o sol diminuiu a sua intensidade e aquece os corpos por ele beijados com a doçura do fim de tarde quando as gaivotas à beira-mar se reúnem em colónias que muito em breve decidirão do destino colectivo. Hoje, por certo, permanecerão no Grande Areal pois a noite prevê-se seja tranquila e cálida.
Não aprazaram o encontro, mas sempre acontece, não por casualidade, mas porque os acontecimentos anteriores a ambos induzem este convergir para o mar quando a acalmia se chega à orla marítima, no momento em que o vento húmido da maresia roda para a brisa que passa a correr de terra para o mar.
Nesse mágico momento olhares carregados de sentir cruzam em mensagens de código estranho a que somente os iniciados na partilha e na permuta de afectos podem ter acesso. Um ligeiro sorriso, um cerrar quase imperceptível das pálpebras, um respirar ligeiramente mais agitado. Emoção.
Depois foi o caminhar lado a lado. Passo lento para a conversa ter mais sabor e o próprio odor do mar impregnar o corpo e o sentir. Cumplicidade no aproximar dos corpos, do tocar das ancas, do afastar ligeiramente... Sensualidade à flor da pele.
Se fosse possível um mesmo observador encontrar-se no mesmo momento em dois pontos muito distantes do globo ficaria, por certo, surpreendido com o que lhe era dado observar...
Uma mulher jovem, airosa no caminhar descalça sobre uma areia escura e grada, quase pequenos calhaus rolados, olhava sonhadora para o mar imenso, talvez mesmo um enorme lago pois não tinha ondulação e sonhava com a magia do âmbar. Seus olhos fulgiam em tonalidades que o observador não conseguia definir e embora caminhando só, mais parecia acompanhada pelos requebros que dava ao corpo e pela conversa que parecia manter.
Muito longe, quase do outro lado da Terra, as distâncias nem sempre se medem em quilómetros, um ancião de cabelo prata arregaçara as calças e pés mergulhados no espraiar das ondas caminhava para Sul sobre um manto de areia fina e doirada. Os olhos castanhos, cansados, pareceram mudar de cor e ganhar mais brilho quando o mar rolou mais forte e a água lhe chegou aos joelhos, molhando a dobra das calças. Curvou-se e apanhou uma pequenina concha que o mar havia depositado na areia.
Mas nesta altura já o sol diminuiu a sua intensidade e aquece os corpos por ele beijados com a doçura do fim de tarde quando as gaivotas à beira-mar se reúnem em colónias que muito em breve decidirão do destino colectivo. Hoje, por certo, permanecerão no Grande Areal pois a noite prevê-se seja tranquila e cálida.
Não aprazaram o encontro, mas sempre acontece, não por casualidade, mas porque os acontecimentos anteriores a ambos induzem este convergir para o mar quando a acalmia se chega à orla marítima, no momento em que o vento húmido da maresia roda para a brisa que passa a correr de terra para o mar.
Nesse mágico momento olhares carregados de sentir cruzam em mensagens de código estranho a que somente os iniciados na partilha e na permuta de afectos podem ter acesso. Um ligeiro sorriso, um cerrar quase imperceptível das pálpebras, um respirar ligeiramente mais agitado. Emoção.
Depois foi o caminhar lado a lado. Passo lento para a conversa ter mais sabor e o próprio odor do mar impregnar o corpo e o sentir. Cumplicidade no aproximar dos corpos, do tocar das ancas, do afastar ligeiramente... Sensualidade à flor da pele.
Se fosse possível um mesmo observador encontrar-se no mesmo momento em dois pontos muito distantes do globo ficaria, por certo, surpreendido com o que lhe era dado observar...
Uma mulher jovem, airosa no caminhar descalça sobre uma areia escura e grada, quase pequenos calhaus rolados, olhava sonhadora para o mar imenso, talvez mesmo um enorme lago pois não tinha ondulação e sonhava com a magia do âmbar. Seus olhos fulgiam em tonalidades que o observador não conseguia definir e embora caminhando só, mais parecia acompanhada pelos requebros que dava ao corpo e pela conversa que parecia manter.
Muito longe, quase do outro lado da Terra, as distâncias nem sempre se medem em quilómetros, um ancião de cabelo prata arregaçara as calças e pés mergulhados no espraiar das ondas caminhava para Sul sobre um manto de areia fina e doirada. Os olhos castanhos, cansados, pareceram mudar de cor e ganhar mais brilho quando o mar rolou mais forte e a água lhe chegou aos joelhos, molhando a dobra das calças. Curvou-se e apanhou uma pequenina concha que o mar havia depositado na areia.
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sábado, junho 05, 2010
sei que partiste
A vida sentida ao ritmo das ondas do mar tem um sabor diferente de qualquer outro, pelo conteúdo misterioso que envolve, pelas especiarias esquisitas que a condimento, pelo constante avançar e recuar cuja amplitude a Lua tanto influencia.
O velho marinheiro, cabelos brancos desgrenhados salgados pela maresia, passa horas a fio em cúmplice comunhão com o espraiar do mar na areia, ora parecendo um suave manto prateado, logo em rebentação forte pulverizando milhares de gotícolas.
Naquele dia o mar veio suavemente depositar-lhe aos pés uma garrafa mensageira...
“Caro Marinheiro
Sei que te foste, partiste, mas a vida de marinheiro é assim, não é? Um amor em cada porto, uma bebida em cada tasca, uma pintura em cada mural de cada cidade...
Por aqui ficará sempre a tua marca, dos teus pensamentos deixados ao vento num miradouro luminoso, pronto a receber os olhares e os amassos de quem por aqui passar, por aqui ficarei de olhos postos no Mar, não à tua espera, mas a recordar, a imaginar as novas aventuras, tu e o teu mar que tanto me assusta, que tanto me aflige.
Partir não é o fim, é a mudança, é mudar de rumo, é ver um mundo novo, foste tu quem já o disse...
Por aí, por esse mar, vais encontrar com certeza um sorriso enorme, assim como o teu, sorriso maduro de quem sabe que sorrir não é apenas um gesto simpático, é uma tradução de algo, uma tradução de um sentir!
Até já.”
A mensagem vinha datada de 4 de Janeiro do ano de 2007. Quanto mar já havia navegado para chegar ao destinatário? Duas gotas de água muito transparentes foram salgar ainda mais este mar tão azul.
O velho marinheiro, cabelos brancos desgrenhados salgados pela maresia, passa horas a fio em cúmplice comunhão com o espraiar do mar na areia, ora parecendo um suave manto prateado, logo em rebentação forte pulverizando milhares de gotícolas.
Naquele dia o mar veio suavemente depositar-lhe aos pés uma garrafa mensageira...
“Caro Marinheiro
Sei que te foste, partiste, mas a vida de marinheiro é assim, não é? Um amor em cada porto, uma bebida em cada tasca, uma pintura em cada mural de cada cidade...
Por aqui ficará sempre a tua marca, dos teus pensamentos deixados ao vento num miradouro luminoso, pronto a receber os olhares e os amassos de quem por aqui passar, por aqui ficarei de olhos postos no Mar, não à tua espera, mas a recordar, a imaginar as novas aventuras, tu e o teu mar que tanto me assusta, que tanto me aflige.
Partir não é o fim, é a mudança, é mudar de rumo, é ver um mundo novo, foste tu quem já o disse...
Por aí, por esse mar, vais encontrar com certeza um sorriso enorme, assim como o teu, sorriso maduro de quem sabe que sorrir não é apenas um gesto simpático, é uma tradução de algo, uma tradução de um sentir!
Até já.”
A mensagem vinha datada de 4 de Janeiro do ano de 2007. Quanto mar já havia navegado para chegar ao destinatário? Duas gotas de água muito transparentes foram salgar ainda mais este mar tão azul.
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sexta-feira, junho 26, 2009
o virar da maré
sentires da praia do sol
O velho marinheiro, cabelos brancos desgrenhados, partiu um dia para mares do longe cumprindo o seu desígnio de nómada dos areais e dos sentires. Contam os mais velhos que em noites de calmaria sua frágil barcaça se aproxima do Grande Areal. Ele procura encontrar a “sua” ninfa, inspiração de toda uma vida. O mar fica, então, mais salgado ainda.
No tempo exacto do virar da maré, se de outra forma o não soubesse, ainda bem cedo havia consultado o minúsculo livro que apresenta as previsões anuais das vazas e das cheias das ondas nas praias, o velho marinheiro que caminhava ao longo da ténue orla de espuma prateada que as ondas mais atrevidas ainda iam deixando no areal, sentiu o virar da maré.
Mesmo que previsto não estivesse, que o pequeno livro não houvera consultado e que estivesse em branco o afixado papel na entrada do apoio de praia onde normalmente consta essa indicação, o homem calejado pelo salitre do mar sabia-o. O mar lhe dera essa indicação.
As águas haviam caminhado para a preia-mar com tranquilidade, com bonomia até, numa aproximação total ao doirado areal e às poucas pessoas que o percorriam nessa hora matinal com o sol a despontar do cimo da arriba. O espraiar das ondas beijara mesmo os pés do lobo do mar nos minutos últimos em que a marca molhada ultrapassava a que anteriormente havia chegado. Mas agora parecia agitar-se.
O velho marinheiro leu e entendeu perfeitamente esse sinal. O mar começou a mostrar a sua revolta por algo que sendo inquestionável e inevitável lhe não agradava um pouco que fosse. A partir desse momento, a partir da altura em que a preia-mar atingira a sua plenitude, a viragem da maré tinha lugar, o mar iria ser afastado pelos desígnios da Natureza das areias que tanto amava e recolher-se às profundezas do oceano.
Iria afastar-se das areias e do velho marinheiro, amigo e cúmplice de tantas andanças e tormentas, pois o mar não confunde a amizade que tem pelo marinheiro com o seu destino de ser, ora mar de “damas” e logo mar “macho”, quantas vezes sepultura do seu próprio amigo. É a permanente presença do bem e do mal, da mão que acarinha e que puxa para o turbilhão das ondas.
Era esta secular partilha de sentires entre o mar e o marinheiro que dava tanto encanto a uma cumplicidade infinita. O mar cumpria o ritmo das marés, revoltado porque lhe retiravam a preia-mar. Ainda há pouco tão tranquilo mostrava a sua revolta no forte troar da rebentação que, por certo, já era ouvido para lá da falésia em terras de charneca e de e dos homens do campo.
O velho pescador sabe bem que um dia chegará o tempo de acompanhar o “seu” mar no caminho da baixa-mar. Seguirá, então, mar adentro no caminho do horizonte, do sonho, para lá da imaginação. Nesse dia o velho marinheiro será mar.
No tempo exacto do virar da maré, se de outra forma o não soubesse, ainda bem cedo havia consultado o minúsculo livro que apresenta as previsões anuais das vazas e das cheias das ondas nas praias, o velho marinheiro que caminhava ao longo da ténue orla de espuma prateada que as ondas mais atrevidas ainda iam deixando no areal, sentiu o virar da maré.
Mesmo que previsto não estivesse, que o pequeno livro não houvera consultado e que estivesse em branco o afixado papel na entrada do apoio de praia onde normalmente consta essa indicação, o homem calejado pelo salitre do mar sabia-o. O mar lhe dera essa indicação.
As águas haviam caminhado para a preia-mar com tranquilidade, com bonomia até, numa aproximação total ao doirado areal e às poucas pessoas que o percorriam nessa hora matinal com o sol a despontar do cimo da arriba. O espraiar das ondas beijara mesmo os pés do lobo do mar nos minutos últimos em que a marca molhada ultrapassava a que anteriormente havia chegado. Mas agora parecia agitar-se.
O velho marinheiro leu e entendeu perfeitamente esse sinal. O mar começou a mostrar a sua revolta por algo que sendo inquestionável e inevitável lhe não agradava um pouco que fosse. A partir desse momento, a partir da altura em que a preia-mar atingira a sua plenitude, a viragem da maré tinha lugar, o mar iria ser afastado pelos desígnios da Natureza das areias que tanto amava e recolher-se às profundezas do oceano.
Iria afastar-se das areias e do velho marinheiro, amigo e cúmplice de tantas andanças e tormentas, pois o mar não confunde a amizade que tem pelo marinheiro com o seu destino de ser, ora mar de “damas” e logo mar “macho”, quantas vezes sepultura do seu próprio amigo. É a permanente presença do bem e do mal, da mão que acarinha e que puxa para o turbilhão das ondas.
Era esta secular partilha de sentires entre o mar e o marinheiro que dava tanto encanto a uma cumplicidade infinita. O mar cumpria o ritmo das marés, revoltado porque lhe retiravam a preia-mar. Ainda há pouco tão tranquilo mostrava a sua revolta no forte troar da rebentação que, por certo, já era ouvido para lá da falésia em terras de charneca e de e dos homens do campo.
O velho pescador sabe bem que um dia chegará o tempo de acompanhar o “seu” mar no caminho da baixa-mar. Seguirá, então, mar adentro no caminho do horizonte, do sonho, para lá da imaginação. Nesse dia o velho marinheiro será mar.
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quinta-feira, maio 28, 2009
mar tão cúmplice
Não foi fácil ao velho marinheiro percorrer a íngreme vereda que desce quase até ao mar, sempre havia pensado ser mais difícil a descida do que a subida e assim era, mas o apelo forte do mar não lhe deixou outra alternativa do que pôr-se ao caminho. Trôpego, as pernas já não tinham a ligeireza doutros tempos, lá foi fazendo a caminhada, aproveitando a fresquidão da alvorada.
À sua memória, como num filme a que já faltassem pedaços, acorriam tempos dispersos, sentires profundos, de quando essa mesma vereda descia para se ir encontrar com a mais bela mulher que algum dia havia conhecido. De beleza física sem par, mas também com uma aura de cor que sempre a envolvia quase não sendo necessário trocar palavras para entenderem mutuamente seus sentires.
Perdera-a no tempo, que o tempo que passa não se compraz com profundos sentimentos, varre os pensamentos como as ondas quando se espraiam na areia, mas sempre imagina que um dia a encontrará nas doiradas areias, na cumplicidade do mar, do seu mar, que a bela mulher do seu encantamento sempre usava dizer “do nosso mar”.
Quando chegou ao areal o dia que começara tão luminoso pareceu de súbito enevoar-se, uma neblina densa e fria impedia-o de ver o enrolar das ondas que sentia e ouvia ali tão perto. Teve dúvidas se não seria a sua própria vista que o atraiçoara no cansaço da descida da vereda. Passou mais do que uma vez as mãos pelos olhos na tentativa infrutífera de afastar a névoa que lhe tirava a visão.
Pés descalços, calças arregaçadas, abeirou-se do mar que lhe lambia docemente os pés, uma onda mais forte molhou-lhe as calças tornando-as pesadas. Sentiu algo bater-lhe nas pernas, baloiçando, baloiçar de barcaça na dança da ondulação. Segurou a barcaça com a mão firme, esforçou-se por galgar a borda e sentiu-se dentro dela em doce balanceio.
Um cântico suave, um perfume inesquecível convidava-o a navegar, chamava-o como tantas vezes antes lhe acontecera em encontros de tanta luz e cor. Mas agora era a névoa densa que o envolvia. O mar agitou-se, quase não reconhecia naquele ancião de cabelo branco desgrenhado o velho marinheiro cúmplice de tantos sentires. Puxou-o mais para sim, para onde a vista do ser humano já não alcança.
Contam os homens da beira-mar que em noites de Lua Cheia, lá longe onde o mar muda de cor, de azul para verde e até para lilás, vêem forte luminosidade e uma pequena barcaça com os vultos de um velho de brancos cabelos e de uma bela mulher que docemente se abraçam.
À sua memória, como num filme a que já faltassem pedaços, acorriam tempos dispersos, sentires profundos, de quando essa mesma vereda descia para se ir encontrar com a mais bela mulher que algum dia havia conhecido. De beleza física sem par, mas também com uma aura de cor que sempre a envolvia quase não sendo necessário trocar palavras para entenderem mutuamente seus sentires.
Perdera-a no tempo, que o tempo que passa não se compraz com profundos sentimentos, varre os pensamentos como as ondas quando se espraiam na areia, mas sempre imagina que um dia a encontrará nas doiradas areias, na cumplicidade do mar, do seu mar, que a bela mulher do seu encantamento sempre usava dizer “do nosso mar”.
Quando chegou ao areal o dia que começara tão luminoso pareceu de súbito enevoar-se, uma neblina densa e fria impedia-o de ver o enrolar das ondas que sentia e ouvia ali tão perto. Teve dúvidas se não seria a sua própria vista que o atraiçoara no cansaço da descida da vereda. Passou mais do que uma vez as mãos pelos olhos na tentativa infrutífera de afastar a névoa que lhe tirava a visão.
Pés descalços, calças arregaçadas, abeirou-se do mar que lhe lambia docemente os pés, uma onda mais forte molhou-lhe as calças tornando-as pesadas. Sentiu algo bater-lhe nas pernas, baloiçando, baloiçar de barcaça na dança da ondulação. Segurou a barcaça com a mão firme, esforçou-se por galgar a borda e sentiu-se dentro dela em doce balanceio.
Um cântico suave, um perfume inesquecível convidava-o a navegar, chamava-o como tantas vezes antes lhe acontecera em encontros de tanta luz e cor. Mas agora era a névoa densa que o envolvia. O mar agitou-se, quase não reconhecia naquele ancião de cabelo branco desgrenhado o velho marinheiro cúmplice de tantos sentires. Puxou-o mais para sim, para onde a vista do ser humano já não alcança.
Contam os homens da beira-mar que em noites de Lua Cheia, lá longe onde o mar muda de cor, de azul para verde e até para lilás, vêem forte luminosidade e uma pequena barcaça com os vultos de um velho de brancos cabelos e de uma bela mulher que docemente se abraçam.
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terça-feira, maio 12, 2009
do mar
Deitara-se tarde, no tempo em que a noite já caminha afoitamente para o madrugar, cansado das andanças da vida, percorrendo veredas de cor na procura do sonho, o sonho que outros dormires lhe tirara, por esquivo mais desejado ainda.
O corpo dorido a pedir repouso disputava o seu sentir ao espírito que teimava em manter-se desperto e que num turbilhão de desencontrados pensamentos, o lançava. Encontrava-se naquele estado de vigília em que o corpo já parecia ter-se ausentado mas a alma teimava para as pálpebras não cerrarem.
No meio de tamanha tormenta que lhe trazia à memória o mar tumultuoso que tantas vezes procurara amainar, pareceu-lhe ouvir um fio de voz que murmurava nos lugares mais recônditos do seu cérebro: “meu mar… mar… ai o mar...”, uma voz maviosa, talvez mesmo, somente a musicalidade de um cântico de uma misteriosa sereia.
Sobressaltou-se, não sabendo mesmo distinguir o sonho da realidade, pois as palavras sentidas continuaram a pairar no seu ouvido, agora completamente desperto, o sono que não chegara sequer a tomar-lhe o corpo e o espírito e agora tudo a parecer-lhe mais confuso, acelerando-lhe as batidas cardíacas.
O sossego já o deixara e levara consigo o cansaço, procurou agasalhar-se que sabia estar fria a noite aclarada pelos primeiros raios da aurora e caminhou na direcção do areal onde se projectava a sua sombra dando mais mistério ao momento, verificou então quanto curvado estava seu corpo sofrido pelo tempo que passa.
Sentiu-se só, muito só no vasto areal e quando olhou para sul na direcção das minas de ouro onde as pepitas já não fulgem e mais além o barbárico promontório vislumbrou que o cacimbo matinal melhor não deixa ver uma silhueta que reconheceu por tanto a ter no pensamento.
Estugou a passada difícil de no areal caminhar mas tem a perfeita noção de que a distância se mantém, a imagem tão etérea como antes, o sentimento de quem nunca conseguirá atingir o que procura, na impossibilidade de realizar a utopia. Mas caminhou, caminhou cada vez mais depressa.
Tudo lhe pareceu irreal, mesmo os sítios por si tão conhecidos de tanto os ter calcorreado, temeu mesmo já ter perdido o sentido de orientação, quando de súbito numa mudança abrupta do cenário se viu junto ao vulto que ainda há pouco tão distante lhe parecia.
Não reconheceu aquela mulher tão bela mas teve a certeza de que tinha sido a sua maviosa voz que pronunciara as doces palavras que o haviam despertado, tão pouco ela reagiu mais do que com um leve sorriso e continuou o caminho, mas com espanto verificou, na direcção do norte, do monte da lua, esfumando-se no seu sentir.
O corpo dorido a pedir repouso disputava o seu sentir ao espírito que teimava em manter-se desperto e que num turbilhão de desencontrados pensamentos, o lançava. Encontrava-se naquele estado de vigília em que o corpo já parecia ter-se ausentado mas a alma teimava para as pálpebras não cerrarem.
No meio de tamanha tormenta que lhe trazia à memória o mar tumultuoso que tantas vezes procurara amainar, pareceu-lhe ouvir um fio de voz que murmurava nos lugares mais recônditos do seu cérebro: “meu mar… mar… ai o mar...”, uma voz maviosa, talvez mesmo, somente a musicalidade de um cântico de uma misteriosa sereia.
Sobressaltou-se, não sabendo mesmo distinguir o sonho da realidade, pois as palavras sentidas continuaram a pairar no seu ouvido, agora completamente desperto, o sono que não chegara sequer a tomar-lhe o corpo e o espírito e agora tudo a parecer-lhe mais confuso, acelerando-lhe as batidas cardíacas.
O sossego já o deixara e levara consigo o cansaço, procurou agasalhar-se que sabia estar fria a noite aclarada pelos primeiros raios da aurora e caminhou na direcção do areal onde se projectava a sua sombra dando mais mistério ao momento, verificou então quanto curvado estava seu corpo sofrido pelo tempo que passa.
Sentiu-se só, muito só no vasto areal e quando olhou para sul na direcção das minas de ouro onde as pepitas já não fulgem e mais além o barbárico promontório vislumbrou que o cacimbo matinal melhor não deixa ver uma silhueta que reconheceu por tanto a ter no pensamento.
Estugou a passada difícil de no areal caminhar mas tem a perfeita noção de que a distância se mantém, a imagem tão etérea como antes, o sentimento de quem nunca conseguirá atingir o que procura, na impossibilidade de realizar a utopia. Mas caminhou, caminhou cada vez mais depressa.
Tudo lhe pareceu irreal, mesmo os sítios por si tão conhecidos de tanto os ter calcorreado, temeu mesmo já ter perdido o sentido de orientação, quando de súbito numa mudança abrupta do cenário se viu junto ao vulto que ainda há pouco tão distante lhe parecia.
Não reconheceu aquela mulher tão bela mas teve a certeza de que tinha sido a sua maviosa voz que pronunciara as doces palavras que o haviam despertado, tão pouco ela reagiu mais do que com um leve sorriso e continuou o caminho, mas com espanto verificou, na direcção do norte, do monte da lua, esfumando-se no seu sentir.
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domingo, março 15, 2009
areias
Deixa-me contar-te um segredo...
Um dia, já lá vão muitos anos [que nestas coisas do tempo que passa um ano pode parecer uma chispa, como um segundo uma eternidade] numa das muitas conversas que sempre tenho com o “nosso” mar falei-lhe numa Ninfa do Tejo que amava guardar areias de todas as praias, de todos os rios e ribeiros.
O “nosso” mar apaixonou-se pela tal Ninfa que tanto amava as areias, as mesmas que o mar acariciava desde tempos imemoriais, no seu continuado e doce espraiar, desígnio marcado para todo o sempre, ao sabor da influência da força das marés e dos ciclos lunares que acompanham a vida e as vivências, o sentir e os sentimentos.
O “nosso” mar sabia, contudo, que ali por cerca da Trafaria, perto de Alma(da) ou de A(l)mada, existia uma barreira natural intransponível, pelo Povo chamada “quebra do mar”, “onde o Tejo beija o Mar”... e os namorados procuram imitar quando a Primavera dá os seus primeiros sinais.
Então, segredou-me o “nosso” mar: “Pede à Ninfa do Tejo que guarde sempre junto das areias que tanto me confortam ao ritmo das marés, algumas palavras, mesmo sentires que eu um dia possa conhecer no Grande Areal da Caparica”.
Muitas vezes, no passar dos tempos, escritos de amor foram vistos gravados nos amplos areais e que somente o espraiar das ondas em espuma prateada tinha capacidade de apagar.
Lá no alto da arriba, no limite dos jardins do Convento dos Capuchos, sobranceiros ao mar azul, os “Olhares” os "Mil Olhos" do poeta Neruda acompanham com compreensão este diálogo que é paixão, como o poeta tão bem entendia lá pelas lonjuras do Pacífico.
Um dia, já lá vão muitos anos [que nestas coisas do tempo que passa um ano pode parecer uma chispa, como um segundo uma eternidade] numa das muitas conversas que sempre tenho com o “nosso” mar falei-lhe numa Ninfa do Tejo que amava guardar areias de todas as praias, de todos os rios e ribeiros.
O “nosso” mar apaixonou-se pela tal Ninfa que tanto amava as areias, as mesmas que o mar acariciava desde tempos imemoriais, no seu continuado e doce espraiar, desígnio marcado para todo o sempre, ao sabor da influência da força das marés e dos ciclos lunares que acompanham a vida e as vivências, o sentir e os sentimentos.
O “nosso” mar sabia, contudo, que ali por cerca da Trafaria, perto de Alma(da) ou de A(l)mada, existia uma barreira natural intransponível, pelo Povo chamada “quebra do mar”, “onde o Tejo beija o Mar”... e os namorados procuram imitar quando a Primavera dá os seus primeiros sinais.
Então, segredou-me o “nosso” mar: “Pede à Ninfa do Tejo que guarde sempre junto das areias que tanto me confortam ao ritmo das marés, algumas palavras, mesmo sentires que eu um dia possa conhecer no Grande Areal da Caparica”.
Muitas vezes, no passar dos tempos, escritos de amor foram vistos gravados nos amplos areais e que somente o espraiar das ondas em espuma prateada tinha capacidade de apagar.
Lá no alto da arriba, no limite dos jardins do Convento dos Capuchos, sobranceiros ao mar azul, os “Olhares” os "Mil Olhos" do poeta Neruda acompanham com compreensão este diálogo que é paixão, como o poeta tão bem entendia lá pelas lonjuras do Pacífico.
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segunda-feira, março 09, 2009
a garrafa trazida pelo mar
No final da tarde, tarde cálida de Outono, já o Sol se começava a deixar cair na linha do horizonte para mais uma noite de descanso nas profundezas do mar, o velho homem do bar sentou-se na areia em plácida contemplação deste momento único.
A maré-cheia havia depositado na orla prateada do rebentar das ondas milhares de conchas de bivalves mas, igualmente enormes “cachos” de mexilhões ainda vivos recém arrancados a algum rochedo das profundezas,
À sétima onda, aquela que mais forte tem a rebentação, o mar depositou sobre um suave banco de areia, logo ali a vinte metros de distância, um objecto, uma garrafa, uma garrafa com uma mensagem dentro.
“Era uma linda tarde de Outono, o mar chão, temperatura amena, cheirinho a maresia. Ao longe bem na linha do horizonte, vislumbrei um vulto que caminhava na minha direcção, com passada larga, rapidamente nos aproximámos...parecia alguém conhecido, apercebi-me que carregava algo, ao aproximar-me verifiquei que o vulto vinha curvado pelo peso de um grande sacão...não tive dúvidas era um "ancião de cabelos brancos " meu conhecido há uns tempos, não me reconheceu preocupado que estava no transporte de tão volumoso saco...preocupada parei e então apercebi-me do que ele transportava...ninfas de várias tonalidades amontoadas no sacão transparente tentavam soltar-se...curiosamente todas elas tinham os pés de fora!!! seguiu o seu caminhar e eu pensei...”
O velho “lobo do mar” sentiu correr duas lágrimas nos sulcos do rosto tisnado pelo sol e pelo sal. Sentiu, contudo, que outras oportunidades haveriam de surgir...
A maré-cheia havia depositado na orla prateada do rebentar das ondas milhares de conchas de bivalves mas, igualmente enormes “cachos” de mexilhões ainda vivos recém arrancados a algum rochedo das profundezas,
À sétima onda, aquela que mais forte tem a rebentação, o mar depositou sobre um suave banco de areia, logo ali a vinte metros de distância, um objecto, uma garrafa, uma garrafa com uma mensagem dentro.
“Era uma linda tarde de Outono, o mar chão, temperatura amena, cheirinho a maresia. Ao longe bem na linha do horizonte, vislumbrei um vulto que caminhava na minha direcção, com passada larga, rapidamente nos aproximámos...parecia alguém conhecido, apercebi-me que carregava algo, ao aproximar-me verifiquei que o vulto vinha curvado pelo peso de um grande sacão...não tive dúvidas era um "ancião de cabelos brancos " meu conhecido há uns tempos, não me reconheceu preocupado que estava no transporte de tão volumoso saco...preocupada parei e então apercebi-me do que ele transportava...ninfas de várias tonalidades amontoadas no sacão transparente tentavam soltar-se...curiosamente todas elas tinham os pés de fora!!! seguiu o seu caminhar e eu pensei...”
O velho “lobo do mar” sentiu correr duas lágrimas nos sulcos do rosto tisnado pelo sol e pelo sal. Sentiu, contudo, que outras oportunidades haveriam de surgir...
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quinta-feira, fevereiro 26, 2009
o marinheiro e a andorinha
O velho marinheiro mantinha-se apoiado no cordame da proa da embarcação, olhar perdido para lá da linha do horizonte, pensamentos soltos como o vento a flutuarem ao sabor das linhas imaginárias das isobáricas.
O fim-de-tarde estava cálido, tranquilo... Uma andorinha de bico vermelho vinda das terras do muito longe poisara no mastro da embarcação, repouso breve para retemperar forças que a levariam ao ninho que deixara tempos atrás na procura sazonal de maior bem-estar, na realidade, da sua sobrevivência.
O casco da embarcação na fragilidade que o amplo mar lhe parecia atribuir, balançava docemente ao ritmo da ondulação que partilhava a tranquilidade do fim-de-tarde, quase de sol poente, quando os “caranguejos começam a puxar o Astro-Rei para dentro do mar azul”, como é dizer dos anciões da borda-d’água.
Quantas vezes sentiu o marinheiro de que após o pôr-do-sol vinha a alvorada, que depois do rude Inverno vinha a doce Primavera... de que a morte é perca que significa renovar...
De súbito, um piar forte da andorinha, um sinal de que a partida estava eminente, uma despedida. Silenciosamente o velho marinheiro desejou-lhe leveza no regresso a terra firme. Sabia que tempo passado ela estaria junto da sua Ninfa do Tejo. A saudade seguiu numa pérola de sal.
O fim-de-tarde estava cálido, tranquilo... Uma andorinha de bico vermelho vinda das terras do muito longe poisara no mastro da embarcação, repouso breve para retemperar forças que a levariam ao ninho que deixara tempos atrás na procura sazonal de maior bem-estar, na realidade, da sua sobrevivência.
O casco da embarcação na fragilidade que o amplo mar lhe parecia atribuir, balançava docemente ao ritmo da ondulação que partilhava a tranquilidade do fim-de-tarde, quase de sol poente, quando os “caranguejos começam a puxar o Astro-Rei para dentro do mar azul”, como é dizer dos anciões da borda-d’água.
Quantas vezes sentiu o marinheiro de que após o pôr-do-sol vinha a alvorada, que depois do rude Inverno vinha a doce Primavera... de que a morte é perca que significa renovar...
De súbito, um piar forte da andorinha, um sinal de que a partida estava eminente, uma despedida. Silenciosamente o velho marinheiro desejou-lhe leveza no regresso a terra firme. Sabia que tempo passado ela estaria junto da sua Ninfa do Tejo. A saudade seguiu numa pérola de sal.
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segunda-feira, fevereiro 16, 2009
um belo cântico de amor
...ou a estória do velho marinheiro que um dia se enamorou pela ninfa das azuis águas que acariiam o doirado o grande areal...
Ao longe, até ao alcance da vista, lugar de mistério e de magia onde o céu azul parece mergulhar nas águas do oceano, começa a levantar no vagar do tempo de ilusão que a distância provoca uma cortina de densa neblina em tons de cinza e de sépia que torna o ambiente ameaçador de tormentos que no mar sempre são mais sentidos.
Ontem ao pôr-do-sol, tempo mítico em que “os caranguejos devoram o disco solar”, no dizer popular dos homens do mar, nada fazia prever na transparência do horizonte avermelhado a prometer bom tempo no dia seguinte que o alvorecer de agora fosse tão soturno, de cinza triste, prenúncio de maus acontecimentos que somente o muito querer dos seres humanos poderá o sentido alterar.
O velho marinheiros de cãs desgrenhadas e rebeldes, lobo do mar e pescador, aventureiro sem porto certo, senhor dos faróis como já lhe chamou quem sentiu algures do tempo que passa a necessidade de utilizar a sua luz para lhe iluminar o trilho da vida, caminhos de amores e de desamores, ficou estático perante a prometida violência dos desígnios da Natureza, não dando sequer conta da frieza que lhe trespassava a roupa e de mansinho lhe penetrava o corpo.
Viu as artes saírem ao mar, loucura pensou para si, e no afastamento da beira-mar fazerem os lanços das redes emalhadas ainda há pouco, com malhas tecidas na expectativa de boa pescaria. Sentiu, então, o agreste caminhar do violento temporal que velocidade ganhava conforme se deslocava para terra. Pensou uma vez mais na ousadia que fora os pescadores fazerem-se ao mar que se mostrava, cada vez mais, agitado e ameaçador.
Seus pensamentos vogaram paragens longínquas na procura da cor que matizasse o cinzento quase breu que o envolvia e sobre si parecia abater-se. Sabia, contudo, que teria a espera como companheira até à sétima onda do mar que enrolava no areal. Com ela viria a bonança o arco-íris o pote de ouro a magia das cores a pesca farta e os seus companheiros das artes. Como em tempos ancestrais eles contariam como uma bela mulher de cânticos doces e olhar atrevido havia surgido do seio das águas e transformado o cinzento em azul magnífico e a tempestade em fartura de peixe prateado.
Contariam aquela estória que ele tão profundamente conhecia.
Ao longe, até ao alcance da vista, lugar de mistério e de magia onde o céu azul parece mergulhar nas águas do oceano, começa a levantar no vagar do tempo de ilusão que a distância provoca uma cortina de densa neblina em tons de cinza e de sépia que torna o ambiente ameaçador de tormentos que no mar sempre são mais sentidos.
Ontem ao pôr-do-sol, tempo mítico em que “os caranguejos devoram o disco solar”, no dizer popular dos homens do mar, nada fazia prever na transparência do horizonte avermelhado a prometer bom tempo no dia seguinte que o alvorecer de agora fosse tão soturno, de cinza triste, prenúncio de maus acontecimentos que somente o muito querer dos seres humanos poderá o sentido alterar.
O velho marinheiros de cãs desgrenhadas e rebeldes, lobo do mar e pescador, aventureiro sem porto certo, senhor dos faróis como já lhe chamou quem sentiu algures do tempo que passa a necessidade de utilizar a sua luz para lhe iluminar o trilho da vida, caminhos de amores e de desamores, ficou estático perante a prometida violência dos desígnios da Natureza, não dando sequer conta da frieza que lhe trespassava a roupa e de mansinho lhe penetrava o corpo.
Viu as artes saírem ao mar, loucura pensou para si, e no afastamento da beira-mar fazerem os lanços das redes emalhadas ainda há pouco, com malhas tecidas na expectativa de boa pescaria. Sentiu, então, o agreste caminhar do violento temporal que velocidade ganhava conforme se deslocava para terra. Pensou uma vez mais na ousadia que fora os pescadores fazerem-se ao mar que se mostrava, cada vez mais, agitado e ameaçador.
Seus pensamentos vogaram paragens longínquas na procura da cor que matizasse o cinzento quase breu que o envolvia e sobre si parecia abater-se. Sabia, contudo, que teria a espera como companheira até à sétima onda do mar que enrolava no areal. Com ela viria a bonança o arco-íris o pote de ouro a magia das cores a pesca farta e os seus companheiros das artes. Como em tempos ancestrais eles contariam como uma bela mulher de cânticos doces e olhar atrevido havia surgido do seio das águas e transformado o cinzento em azul magnífico e a tempestade em fartura de peixe prateado.
Contariam aquela estória que ele tão profundamente conhecia.
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segunda-feira, fevereiro 09, 2009
cabelos brancos longos desgrenhados
O mar chegou de mansinho em lento deslizar, sensual sobre a doirada areia, desfazendo-se em milhões de gotícolas prateadas, para logo se retirar na timidez de quem ousou uma furtiva carícia.
À sétima onda, uma onda de magia que é assim que é natural o ritmo das marés, o mar foi mais forte e sentiu a macieza dos pés de uma mulher que percorria tranquilamente a orla de espuma que ia ficando depositada na areia, em resultado do fluxo e refluxo das águas do oceano.
A mulher sentiu um estranho arrepio reagindo a esse mais forte contacto. Sem dúvida não era alheia a este sentir a frieza da água e o inesperado do contacto. Contudo, manteve-se essa estranha sensação quando viu que o mar havia depositado a seus pés um maravilhoso leque, tampa de uma concha de vieira.
Depois, o mar recuou até uma lonjura nunca antes vista num claro convite a cumplicidades que trouxe ao pensamento da mulher um velho marinheiro que perdido nos sonhos de um mirante que é sótão tanto lhe falara no grande amor sentido por esse mar tão belo.
Na praia, uma pequena multidão usufruía daquela manhã soalheira, e a mulher vislumbrou lá longe uma cabeça de homem coberta de brancos cabelos... é o marinheiro!! E correu, correu... Tropeçou num pedaço de madeira abandonado, desviou-se de muita gente que se atravessava no seu caminho... aproximou-se do ancião. “É o marinheiro!”
Quando lhe viu o rosto foi a desilusão: era outra pessoa. Mais além, mais cabelos brancos... e correu... a mesma nota de tristeza e de desilusão... E mais outro, e mais outro... havia muitos cabelos brancos mas não eram conhecidos...”.
Rolaram lágrimas pelo seu rosto bonito, mas com o olhar triste e ensombrado. Lágrimas de sal? Aqueles olhos somente podem deixar fugir lágrimas de mel... E aquele cheirinho do mar...
À sétima onda, uma onda de magia que é assim que é natural o ritmo das marés, o mar foi mais forte e sentiu a macieza dos pés de uma mulher que percorria tranquilamente a orla de espuma que ia ficando depositada na areia, em resultado do fluxo e refluxo das águas do oceano.
A mulher sentiu um estranho arrepio reagindo a esse mais forte contacto. Sem dúvida não era alheia a este sentir a frieza da água e o inesperado do contacto. Contudo, manteve-se essa estranha sensação quando viu que o mar havia depositado a seus pés um maravilhoso leque, tampa de uma concha de vieira.
Depois, o mar recuou até uma lonjura nunca antes vista num claro convite a cumplicidades que trouxe ao pensamento da mulher um velho marinheiro que perdido nos sonhos de um mirante que é sótão tanto lhe falara no grande amor sentido por esse mar tão belo.
Na praia, uma pequena multidão usufruía daquela manhã soalheira, e a mulher vislumbrou lá longe uma cabeça de homem coberta de brancos cabelos... é o marinheiro!! E correu, correu... Tropeçou num pedaço de madeira abandonado, desviou-se de muita gente que se atravessava no seu caminho... aproximou-se do ancião. “É o marinheiro!”
Quando lhe viu o rosto foi a desilusão: era outra pessoa. Mais além, mais cabelos brancos... e correu... a mesma nota de tristeza e de desilusão... E mais outro, e mais outro... havia muitos cabelos brancos mas não eram conhecidos...”.
Rolaram lágrimas pelo seu rosto bonito, mas com o olhar triste e ensombrado. Lágrimas de sal? Aqueles olhos somente podem deixar fugir lágrimas de mel... E aquele cheirinho do mar...
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domingo, fevereiro 08, 2009
mares convergentes
Já passou tempo que o sol deixou de dardejar a Terra com a intensidade que tem feito nos últimos dias. É a sua vital energia que chega até, imprescindível mas para a qual é necessários cuidados e precauções adicionados, agora que surgem efeitos do vandalismo que o ser humano tem cometido sobre a Natureza.
Mas nesta altura já o sol diminuiu a sua intensidade e aquece os corpos por ele beijados com a doçura do fim de tarde quando as gaivotas à beira-mar se reúnem em colónias que muito em breve decidirão do destino colectivo. Hoje, por certo, permanecerão no Grande Areal pois a noite prevê-se seja tranquila e cálida.
Não aprazaram o encontro, mas sempre acontece, não por casualidade, mas porque os acontecimentos anteriores a ambos induzem este convergir para o mar quando a acalmia se chega à orla marítima, no momento em que o vento húmido da maresia roda para a brisa que passa a correr de terra para o mar.
Nesse mágico momento olhares carregados de sentir cruzam em mensagens de código estranho a que somente os iniciados na partilha e na permuta de afectos podem ter acesso. Um ligeiro sorriso, um cerrar quase imperceptível das pálpebras, um respirar ligeiramente mais agitado. Emoção.
Depois foi o caminhar lado a lado. Passo lento para a conversa ter mais sabor e o próprio odor do mar impregnar o corpo e o sentir. Cumplicidade no aproximar dos corpos, do tocar das ancas, do afastar ligeiramente... Sensualidade à flor da pele.
Se fosse possível um mesmo observador encontrar-se no mesmo momento em dois pontos muito distantes do globo ficaria, por certo, surpreendido com o que lhe era dado observar...
Uma mulher jovem, airosa no caminhar descalça sobre uma areia escura e grada, quase pequenos calhaus rolados, olhava sonhadora para o mar imenso, talvez mesmo um enorme lago pois não tinha ondulação e sonhava com a magia do âmbar. Seu olhos fulgiam em tonalidades que o observador não conseguia definir e embora caminhando só, mais parecia acompanhada pelos requebros que dava ao corpo e pela conversa que parecia manter.
Muito longe, quase do outro lado da Terra, as distâncias nem sempre se medem em quilómetros, um ancião de cabelo prata arregaçara as calças e pés mergulhados no espraiar das ondas caminhava para Sul sobre um manto de areia fina e doirada. Os olhos castanho, cansados, pareceram mudar de cor e ganhar mais brilho quando o mar rolou mais forte e a água lhe chegou aos joelhos, molhando a dobra das calças. Curvou-se e apanhou uma pequenina concha que o mar havia depositado na areia.
Mas nesta altura já o sol diminuiu a sua intensidade e aquece os corpos por ele beijados com a doçura do fim de tarde quando as gaivotas à beira-mar se reúnem em colónias que muito em breve decidirão do destino colectivo. Hoje, por certo, permanecerão no Grande Areal pois a noite prevê-se seja tranquila e cálida.
Não aprazaram o encontro, mas sempre acontece, não por casualidade, mas porque os acontecimentos anteriores a ambos induzem este convergir para o mar quando a acalmia se chega à orla marítima, no momento em que o vento húmido da maresia roda para a brisa que passa a correr de terra para o mar.
Nesse mágico momento olhares carregados de sentir cruzam em mensagens de código estranho a que somente os iniciados na partilha e na permuta de afectos podem ter acesso. Um ligeiro sorriso, um cerrar quase imperceptível das pálpebras, um respirar ligeiramente mais agitado. Emoção.
Depois foi o caminhar lado a lado. Passo lento para a conversa ter mais sabor e o próprio odor do mar impregnar o corpo e o sentir. Cumplicidade no aproximar dos corpos, do tocar das ancas, do afastar ligeiramente... Sensualidade à flor da pele.
Se fosse possível um mesmo observador encontrar-se no mesmo momento em dois pontos muito distantes do globo ficaria, por certo, surpreendido com o que lhe era dado observar...
Uma mulher jovem, airosa no caminhar descalça sobre uma areia escura e grada, quase pequenos calhaus rolados, olhava sonhadora para o mar imenso, talvez mesmo um enorme lago pois não tinha ondulação e sonhava com a magia do âmbar. Seu olhos fulgiam em tonalidades que o observador não conseguia definir e embora caminhando só, mais parecia acompanhada pelos requebros que dava ao corpo e pela conversa que parecia manter.
Muito longe, quase do outro lado da Terra, as distâncias nem sempre se medem em quilómetros, um ancião de cabelo prata arregaçara as calças e pés mergulhados no espraiar das ondas caminhava para Sul sobre um manto de areia fina e doirada. Os olhos castanho, cansados, pareceram mudar de cor e ganhar mais brilho quando o mar rolou mais forte e a água lhe chegou aos joelhos, molhando a dobra das calças. Curvou-se e apanhou uma pequenina concha que o mar havia depositado na areia.
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terça-feira, outubro 14, 2008
mariscar conquilhas
Herdara de seu pai este gosto de mariscar, arrastar o ancinho à custa de muito esforço dos braços e das costas, por forma a que as conquilhas “caíssem” para o saco de rede de pesca de onde não sairiam, enquanto a areia fina se escapava levada pelo refluxo da onda.
Mas era coisa de antepassados, pois também o pai de seu pai e outros homens mais antigos da beira-mar, usando apetrechos que eles próprios construíam, retiravam do mar os deliciosos bivalves que vendiam para as tascas da terra, hoje em dia para restaurantes afamados.
Mas se ir à praia mariscar é herança de família, já o saber, como e quando, é fruto da aprendizagem da vida, dos tempos passados nesta labuta, a cada dia com os seus ensinamentos, aprendendo com as desilusões, tantas vezes à conversa com o mar azul e verde, em confidências e desabafos.
Naquela noite o ti Jaquim da Eira, sabe-se lá se próprio nome ou alcunha, ou alcunha de antepassado transformada em nome, na certeza de que havia aqui um forte laço entre as gentes dos campos e as das maresias, procurou ler com a dificuldade da letra miudinha e da parca iluminação o livrinho das marés. Noutros tempos, livrinho para informação dos pescadores, hoje mais voltado para os interesses dos surfistas.
Pela hora da maré vaza do dia seguinte e pela altura das ondas ficou a saber que se queria que a apanha da conquilha lhe fosse favorável teria que madrugar e fazer-se ao caminho antes do sol nascer, Descida das Vacas abaixo na ida até ao Grande Areal. Gostava de “arrastar” entre as praias do Infante e da Nova Vaga ou então para lá da Bela Vista.
Dormiu pouco nessa noite. Mal tinha caído no primeiro sono, o mais profundo, e já labutava com o arrasto que lhe parecia mais pesado do que nunca. Arrastava, arrastava sem parar até já lhe doerem as cruzes e o peso era cada vez maior. No lugar das conquilhas que iria vender ao restaurante habitual o saco de rede estava cheio de pepitas doiradas. Os fenícios e romanos bem razão tinham em procurar áureos filões em terras da Adiça. Seis horas da matina, hora de se fazer ao caminho.
Equipou-se a preceito que a água estava com certeza gelada e teria que passar algumas horas com as pernas nela mergulhadas. Camisola de lã grossa obra de noites de trabalho da sua companheira, calças de oleado amarelo e casacão do mesmo material. As botas de borracha de cano alto, as galochas, levá-las-ia penduradas ao ombro e somente as calçaria chegado ao areal, pois não era muito prático de as levar calçadas pois ia levar a bicicleta que lhe facilitaria a deslocação. Na cabeça gorro posto que o protegeria do frio e, mais tarde, quando o sol levantasse, do calor.
Foi rápida a deslocação, caminho sempre a descer até à praia. Mais logo no regresso seria mais difícil. Em algum pedaço do percurso teria que ser ele próprio a ajudar a bicicleta, pois as pernas já não tinham força para tanto e a subida de regresso ao povoado muito íngreme.
Chegado ao Grande Areal o ti Jaquim, o ti Jaquim da Eira, deitou a bicicleta na areia, longe de onde a maré cheia iria chegar e calçou as galochas. Bem protegido contra a frieza das águas, antes de começar a labuta olhou em seu redor e não viu vivalma. O sol ainda não surgira sequer no topo da arriba fóssil.
Arrasto após arrasto, dentro do saco de rede do aparelho iam sobrando alguns bivalves à mistura com muita escória de conchas partidas pelo bater das ondas. Deixou-se ficar no arrasto com a água um pouco mais abaixo do joelho, onde ainda era fácil caminhar e os dentes do ancinho não encontravam muita resistência da areia.
Com o lento encher da maré também o ti Jaquim ia recuando no areal, mantendo a água à mesma altura na perna, embora por vezes uma onda mais forte batesse ríspida deixando a espuma branca a bailar a seus pés.
Quando o saco já pesava na direcção da areia retirou-o do mar deixando que se escapasse pela malha de rede a água, a areia e alguns pedaços mais pequenos das conchas partidas. Depois junto à bicicleta caída na areia sentou-se na escolha das conquilhas pondo para o lado todos os restos de conchas. As escolhidas foram colocadas dentro de um recipiente com água do mar para assim se conservarem vivas.
E lá voltou o ti Jaquim de novo para o arrasto, lento e cada vez mais doloroso que as costas de ancião já não tinham a resistência de antigamente. Por duas ou três vezes repetiu a escolha das conquilhas e o regresso ao arrasto.
Já o sol levantava vindo do cimo da arriba fóssil que refulgia em tons doirados quando o ti Jaquim deu por terminada a sua matinal tarefa. Reparou, então, na tranquilidade da manhã, nas dezenas de gaivotas que o rodeavam, quase o considerando “um dos seus”. O velho ancião de cabelos esbranquiçados que ao reflexo do astro-rei pareciam prata sorriu.
O regresso iria ser penoso, depois de percorrer algumas centenas de metros em terra batida esperava-o um íngreme declive onde a ajuda da bicicleta iria ser nula. Teria de ser ele a ajudar a bicicleta.
Consigo levava a esperança de juntar aos seus magros rendimentos dos trabalhos do campo mais algum dinheiro fruto da venda das conquilhas ao restaurante do costume.
Mas era coisa de antepassados, pois também o pai de seu pai e outros homens mais antigos da beira-mar, usando apetrechos que eles próprios construíam, retiravam do mar os deliciosos bivalves que vendiam para as tascas da terra, hoje em dia para restaurantes afamados.
Mas se ir à praia mariscar é herança de família, já o saber, como e quando, é fruto da aprendizagem da vida, dos tempos passados nesta labuta, a cada dia com os seus ensinamentos, aprendendo com as desilusões, tantas vezes à conversa com o mar azul e verde, em confidências e desabafos.
Naquela noite o ti Jaquim da Eira, sabe-se lá se próprio nome ou alcunha, ou alcunha de antepassado transformada em nome, na certeza de que havia aqui um forte laço entre as gentes dos campos e as das maresias, procurou ler com a dificuldade da letra miudinha e da parca iluminação o livrinho das marés. Noutros tempos, livrinho para informação dos pescadores, hoje mais voltado para os interesses dos surfistas.
Pela hora da maré vaza do dia seguinte e pela altura das ondas ficou a saber que se queria que a apanha da conquilha lhe fosse favorável teria que madrugar e fazer-se ao caminho antes do sol nascer, Descida das Vacas abaixo na ida até ao Grande Areal. Gostava de “arrastar” entre as praias do Infante e da Nova Vaga ou então para lá da Bela Vista.
Dormiu pouco nessa noite. Mal tinha caído no primeiro sono, o mais profundo, e já labutava com o arrasto que lhe parecia mais pesado do que nunca. Arrastava, arrastava sem parar até já lhe doerem as cruzes e o peso era cada vez maior. No lugar das conquilhas que iria vender ao restaurante habitual o saco de rede estava cheio de pepitas doiradas. Os fenícios e romanos bem razão tinham em procurar áureos filões em terras da Adiça. Seis horas da matina, hora de se fazer ao caminho.
Equipou-se a preceito que a água estava com certeza gelada e teria que passar algumas horas com as pernas nela mergulhadas. Camisola de lã grossa obra de noites de trabalho da sua companheira, calças de oleado amarelo e casacão do mesmo material. As botas de borracha de cano alto, as galochas, levá-las-ia penduradas ao ombro e somente as calçaria chegado ao areal, pois não era muito prático de as levar calçadas pois ia levar a bicicleta que lhe facilitaria a deslocação. Na cabeça gorro posto que o protegeria do frio e, mais tarde, quando o sol levantasse, do calor.
Foi rápida a deslocação, caminho sempre a descer até à praia. Mais logo no regresso seria mais difícil. Em algum pedaço do percurso teria que ser ele próprio a ajudar a bicicleta, pois as pernas já não tinham força para tanto e a subida de regresso ao povoado muito íngreme.
Chegado ao Grande Areal o ti Jaquim, o ti Jaquim da Eira, deitou a bicicleta na areia, longe de onde a maré cheia iria chegar e calçou as galochas. Bem protegido contra a frieza das águas, antes de começar a labuta olhou em seu redor e não viu vivalma. O sol ainda não surgira sequer no topo da arriba fóssil.
Arrasto após arrasto, dentro do saco de rede do aparelho iam sobrando alguns bivalves à mistura com muita escória de conchas partidas pelo bater das ondas. Deixou-se ficar no arrasto com a água um pouco mais abaixo do joelho, onde ainda era fácil caminhar e os dentes do ancinho não encontravam muita resistência da areia.
Com o lento encher da maré também o ti Jaquim ia recuando no areal, mantendo a água à mesma altura na perna, embora por vezes uma onda mais forte batesse ríspida deixando a espuma branca a bailar a seus pés.
Quando o saco já pesava na direcção da areia retirou-o do mar deixando que se escapasse pela malha de rede a água, a areia e alguns pedaços mais pequenos das conchas partidas. Depois junto à bicicleta caída na areia sentou-se na escolha das conquilhas pondo para o lado todos os restos de conchas. As escolhidas foram colocadas dentro de um recipiente com água do mar para assim se conservarem vivas.
E lá voltou o ti Jaquim de novo para o arrasto, lento e cada vez mais doloroso que as costas de ancião já não tinham a resistência de antigamente. Por duas ou três vezes repetiu a escolha das conquilhas e o regresso ao arrasto.
Já o sol levantava vindo do cimo da arriba fóssil que refulgia em tons doirados quando o ti Jaquim deu por terminada a sua matinal tarefa. Reparou, então, na tranquilidade da manhã, nas dezenas de gaivotas que o rodeavam, quase o considerando “um dos seus”. O velho ancião de cabelos esbranquiçados que ao reflexo do astro-rei pareciam prata sorriu.
O regresso iria ser penoso, depois de percorrer algumas centenas de metros em terra batida esperava-o um íngreme declive onde a ajuda da bicicleta iria ser nula. Teria de ser ele a ajudar a bicicleta.
Consigo levava a esperança de juntar aos seus magros rendimentos dos trabalhos do campo mais algum dinheiro fruto da venda das conquilhas ao restaurante do costume.
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segunda-feira, setembro 08, 2008
o virar da maré
sentires da praia do sol
Nas caminhadas ou na simples contemplação na Praia do Sol extravasamos todos os nossos sentires no azul do mar, no doirado das areias, nos odores da maresia
No tempo exacto do virar da maré, se de outra forma o não soubesse, ainda bem cedo havia consultado o minúsculo livro que apresenta as previsões anuais das vazas e das cheias das ondas nas praias, o velho marinheiro que caminhava ao longo da ténue orla de espuma prateada que as ondas mais atrevidas ainda iam deixando no areal, sentiu o virar da maré.
Mesmo que previsto não estivesse, que o pequeno livro não houvera consultado e que estivesse em branco o afixado papel na entrada do apoio de praia onde normalmente consta essa indicação, o homem calejado pelo salitre do mar sabia-o. O mar lhe dera essa indicação.
As águas haviam caminhado para a preia-mar com tranquilidade, com bonomia até, numa aproximação total ao doirado areal e às poucas pessoas que o percorriam nessa hora matinal com o sol a despontar do cimo da arriba. O espraiar das ondas beijara mesmo os pés do lobo do mar nos minutos últimos em que a marca molhada ultrapassava a que anteriormente havia chegado. Mas agora parecia agitar-se.
O velho marinheiro leu e entendeu perfeitamente esse sinal. O mar começou a mostrar a sua revolta por algo que sendo inquestionável e inevitável lhe não agradava um pouco que fosse. A partir desse momento, a partir da altura em que a preia-mar atingira a sua plenitude, a viragem da maré tinha lugar, o mar iria ser afastado pelos desígnios da Natureza das areias que tanto amava e recolher-se às profundezas do oceano.
Iria afastar-se das areias e do velho marinheiro, amigo e cúmplice de tantas andanças e tormentas, pois o mar não confunde a amizade que tem pelo marinheiro com o seu destino de ser, ora mar de “damas” e logo mar “macho”, quantas vezes sepultura do seu próprio amigo. É a permanente presença do bem e do mal, da mão que acarinha e que puxa para o turbilhão das ondas.
Era esta secular partilha de sentires entre o mar e o marinheiro que dava tanto encanto a uma cumplicidade infinita. O mar cumpria o ritmo das marés, revoltado porque lhe retiravam a preia-mar. Ainda há pouco tão tranquilo mostrava a sua revolta no forte troar da rebentação que, por certo, já era ouvido para lá da falésia em terras de charneca e de e dos homens do campo.
O velho pescador sabe bem que um dia chegará o tempo de acompanhar o “seu” mar no caminho da baixa-mar. Seguirá, então, mar adentro no caminho do horizonte, do sonho, para lá da imaginação. Nesse dia o velho marinheiro será mar.
No tempo exacto do virar da maré, se de outra forma o não soubesse, ainda bem cedo havia consultado o minúsculo livro que apresenta as previsões anuais das vazas e das cheias das ondas nas praias, o velho marinheiro que caminhava ao longo da ténue orla de espuma prateada que as ondas mais atrevidas ainda iam deixando no areal, sentiu o virar da maré.
Mesmo que previsto não estivesse, que o pequeno livro não houvera consultado e que estivesse em branco o afixado papel na entrada do apoio de praia onde normalmente consta essa indicação, o homem calejado pelo salitre do mar sabia-o. O mar lhe dera essa indicação.
As águas haviam caminhado para a preia-mar com tranquilidade, com bonomia até, numa aproximação total ao doirado areal e às poucas pessoas que o percorriam nessa hora matinal com o sol a despontar do cimo da arriba. O espraiar das ondas beijara mesmo os pés do lobo do mar nos minutos últimos em que a marca molhada ultrapassava a que anteriormente havia chegado. Mas agora parecia agitar-se.
O velho marinheiro leu e entendeu perfeitamente esse sinal. O mar começou a mostrar a sua revolta por algo que sendo inquestionável e inevitável lhe não agradava um pouco que fosse. A partir desse momento, a partir da altura em que a preia-mar atingira a sua plenitude, a viragem da maré tinha lugar, o mar iria ser afastado pelos desígnios da Natureza das areias que tanto amava e recolher-se às profundezas do oceano.
Iria afastar-se das areias e do velho marinheiro, amigo e cúmplice de tantas andanças e tormentas, pois o mar não confunde a amizade que tem pelo marinheiro com o seu destino de ser, ora mar de “damas” e logo mar “macho”, quantas vezes sepultura do seu próprio amigo. É a permanente presença do bem e do mal, da mão que acarinha e que puxa para o turbilhão das ondas.
Era esta secular partilha de sentires entre o mar e o marinheiro que dava tanto encanto a uma cumplicidade infinita. O mar cumpria o ritmo das marés, revoltado porque lhe retiravam a preia-mar. Ainda há pouco tão tranquilo mostrava a sua revolta no forte troar da rebentação que, por certo, já era ouvido para lá da falésia em terras de charneca e de e dos homens do campo.
O velho pescador sabe bem que um dia chegará o tempo de acompanhar o “seu” mar no caminho da baixa-mar. Seguirá, então, mar adentro no caminho do horizonte, do sonho, para lá da imaginação. Nesse dia o velho marinheiro será mar.
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sábado, agosto 16, 2008
namoro de agosto
Abeirou-se do doirado areal enquanto descalçava os sapatos e as meias finas e arregaçava as calças de ganga já coçadas pelo uso mas que para este homem tisnado de rosto e cabelos desgrenhados de prata tinham quase um sentir mítico. Um prazer imenso percorreu-lhe o corpo quando os pés foram envolvidos pela fina areia no caminhar na direcção da suave rebentação do mar.
Sentou-se naquela zona em que o sol forte da tarde que terminava já secara a areia mas que ainda tem a consistência forte que o espraiar das ondas lhe tinha dado. Na linha do horizonte o sol mergulhava no mar, devorado pelos caranguejos como é uso os pescadores afirmarem enquanto o céu ainda há pouco azul forte ganhava laivos de doirado numa concorrência secular com a cor do Grande Areal.
No tempo em que o doirado do céu se foi atenuando e pareceu emergir do mar esverdeado tonalidades de lilás que dão novas cores ao firmamento este homem que pousava o olhar castanho nas lonjuras do horizonte sabia que não tardaria dos lados de sueste a surgir a maravilhosa Lua de Agosto, neste dia na sua plenitude de Lua Cheia.
Os seus pensamentos voltaram-se para a sua amada, a sua musa inspiradora, que sempre via reflectida na Lua em tempos de plenitude num namoro que durava até que a própria deusa do amor se perdesse na linha do infinito, no cíclico movimento em torno do planeta mãe. Hoje seria um namoro especial, com o sortilégio do Agosto, na memória das noites cálidas passadas a eirar cereais.
Ainda a Lua não surgira por cima dos penhascos da Arriba Fóssil e já o prateado da sua luminosidade se reflectia nas águas do oceano retirando-lhe fulgores de estranhos coloridos. Pouco depois, o tempo que passa, passa, passa sem parar, o prateado foi perdendo luz como se lhe reduzissem a intensidade.
Quando a Lua finalmente se mostrou ao seu olhar trazia consigo a sombra da própria Terra desenhada, um maravilhoso eclipse que lhe reservava espaço de intimidade para que o namoro fosse mais tranquilo e prolongado. O homem sorrio...
Sentou-se naquela zona em que o sol forte da tarde que terminava já secara a areia mas que ainda tem a consistência forte que o espraiar das ondas lhe tinha dado. Na linha do horizonte o sol mergulhava no mar, devorado pelos caranguejos como é uso os pescadores afirmarem enquanto o céu ainda há pouco azul forte ganhava laivos de doirado numa concorrência secular com a cor do Grande Areal.
No tempo em que o doirado do céu se foi atenuando e pareceu emergir do mar esverdeado tonalidades de lilás que dão novas cores ao firmamento este homem que pousava o olhar castanho nas lonjuras do horizonte sabia que não tardaria dos lados de sueste a surgir a maravilhosa Lua de Agosto, neste dia na sua plenitude de Lua Cheia.
Os seus pensamentos voltaram-se para a sua amada, a sua musa inspiradora, que sempre via reflectida na Lua em tempos de plenitude num namoro que durava até que a própria deusa do amor se perdesse na linha do infinito, no cíclico movimento em torno do planeta mãe. Hoje seria um namoro especial, com o sortilégio do Agosto, na memória das noites cálidas passadas a eirar cereais.
Ainda a Lua não surgira por cima dos penhascos da Arriba Fóssil e já o prateado da sua luminosidade se reflectia nas águas do oceano retirando-lhe fulgores de estranhos coloridos. Pouco depois, o tempo que passa, passa, passa sem parar, o prateado foi perdendo luz como se lhe reduzissem a intensidade.
Quando a Lua finalmente se mostrou ao seu olhar trazia consigo a sombra da própria Terra desenhada, um maravilhoso eclipse que lhe reservava espaço de intimidade para que o namoro fosse mais tranquilo e prolongado. O homem sorrio...
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domingo, julho 27, 2008
mar cúmplice e confidente
Mal chegou à borda-d’água deixou-se cair sobre si próprio a sentir o calor que o sol forte do dia tinha deixado no areal e quedou-se estático a olhar o mar que suavemente se espraiava nas doiradas pérolas em namoro que vem dos tempos imemoriais.
Esse mar tão seu conhecido, cúmplice até em muitas ocasiões, sabia-lhe os remoinhos e os agueiros, contava-lhe as ondas e adivinhava a seguinte, sabia-lhe o humor pelas tonalidade que apresentava, ora azul esverdeado, mesmo verde até, outras vezes da cor do céu quando mesmo em tons de lilás. E doirado, quente quando o Sol “se deixava comer pelos caranguejos”, mais arredio quando era doirado de alvorada, aí quase de argênteo vestido.
No entanto, sempre o surpreendia e por isso se deixava ficar em contemplação profunda durante largos tempos na busca de novos ensinamentos que as marés sempre lhe traziam. E foi o que nesse dia aconteceu quando, sem pressa, se deixou ficar a olhar o mar. O tempo passou sem que de tal desse conta.
Pegou, então, numa varinha que consigo trazia e num espaço de areia alisada colocou-a em perfeita perpendicular ao mesmo. Determinou o Norte real baseado no conhecimento que tinha do sentido em que o sol se deslocava desde o amanhecer até ao magnífico pôr-do-sol e determinou a hora real a partir da sombra que a varinha projectava na areia.
Muito tempo se havia realmente passado, nesse caminhar contínuo que não há contador de tempo que consiga sentir como o ser humano o faz, limita-se a registar sem ter em conta o sentimento do tempo que passa, mas sabia não estar só.
Nestas coisas de viver o mar existe sempre outrem que tal como o efeito de borboleta pode a milhares de quilómetros de distância partilhar os mesmos sentires, quiçá muito amplificados. Tudo é possível quando o que nos une é o mar, ele próprio alheio às classificações que o Homem lhe atribui, constituindo-se como uno, total.
Ah mar, mar cúmplice e confidente.
Esse mar tão seu conhecido, cúmplice até em muitas ocasiões, sabia-lhe os remoinhos e os agueiros, contava-lhe as ondas e adivinhava a seguinte, sabia-lhe o humor pelas tonalidade que apresentava, ora azul esverdeado, mesmo verde até, outras vezes da cor do céu quando mesmo em tons de lilás. E doirado, quente quando o Sol “se deixava comer pelos caranguejos”, mais arredio quando era doirado de alvorada, aí quase de argênteo vestido.
No entanto, sempre o surpreendia e por isso se deixava ficar em contemplação profunda durante largos tempos na busca de novos ensinamentos que as marés sempre lhe traziam. E foi o que nesse dia aconteceu quando, sem pressa, se deixou ficar a olhar o mar. O tempo passou sem que de tal desse conta.
Pegou, então, numa varinha que consigo trazia e num espaço de areia alisada colocou-a em perfeita perpendicular ao mesmo. Determinou o Norte real baseado no conhecimento que tinha do sentido em que o sol se deslocava desde o amanhecer até ao magnífico pôr-do-sol e determinou a hora real a partir da sombra que a varinha projectava na areia.
Muito tempo se havia realmente passado, nesse caminhar contínuo que não há contador de tempo que consiga sentir como o ser humano o faz, limita-se a registar sem ter em conta o sentimento do tempo que passa, mas sabia não estar só.
Nestas coisas de viver o mar existe sempre outrem que tal como o efeito de borboleta pode a milhares de quilómetros de distância partilhar os mesmos sentires, quiçá muito amplificados. Tudo é possível quando o que nos une é o mar, ele próprio alheio às classificações que o Homem lhe atribui, constituindo-se como uno, total.
Ah mar, mar cúmplice e confidente.
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domingo, julho 20, 2008
um belo cântico de amor
Ao longe, até ao alcance da vista, lugar de mistério e de magia onde o céu azul parece mergulhar nas águas do oceano, começa a levantar no vagar do tempo de ilusão que a distância provoca uma cortina de densa neblina em tons de cinza e de sépia que torna o ambiente ameaçador de tormentos que no mar sempre são mais sentidos.
Ontem ao pôr-do-sol, tempo mítico em que “os caranguejos devoram o disco solar”, no dizer popular dos homens do mar, nada fazia prever na transparência do horizonte avermelhado a prometer bom tempo no dia seguinte que o alvorecer de agora fosse tão soturno, de cinza triste, prenúncio de maus acontecimentos que somente o muito querer dos seres humanos poderá o sentido alterar.
O velho marinheiros de cãs desgrenhadas e rebeldes, lobo do mar e pescador, aventureiro sem porto certo, senhor dos faróis como já lhe chamou quem sentiu algures do tempo que passa a necessidade de utilizar a sua luz para lhe iluminar o trilho da vida, caminhos de amores e de desamores, ficou estático perante a prometida violência dos desígnios da Natureza, não dando sequer conta da frieza que lhe trespassava a roupa e de mansinho lhe penetrava o corpo.
Viu as artes saírem ao mar, loucura pensou para si, e no afastamento da beira-mar fazerem os lanços das redes emalhadas ainda há pouco, com malhas tecidas na expectativa de boa pescaria. Sentiu, então, o agreste caminhar do violento temporal que velocidade ganhava conforme se deslocava para terra. Pensou uma vez mais na ousadia que fora os pescadores fazerem-se ao mar que se mostrava, cada vez mais, agitado e ameaçador.
Seus pensamentos vogaram paragens longínquas na procura da cor que matizasse o cinzento quase breu que o envolvia e sobre si parecia abater-se. Sabia, contudo, que teria a espera como companheira até à sétima onda do mar que enrolava no areal. Com ela viria a bonança o arco-íris o pote de ouro a magia das cores a pesca farta e os seus companheiros das artes. Como em tempos ancestrais eles contariam como uma bela mulher de cânticos doces e olhar atrevido havia surgido do seio das águas e transformado o cinzento em azul magnífico e a tempestade em fartura de peixe prateado.
Contariam aquela estória que ele tão profundamente conhecia.
Ontem ao pôr-do-sol, tempo mítico em que “os caranguejos devoram o disco solar”, no dizer popular dos homens do mar, nada fazia prever na transparência do horizonte avermelhado a prometer bom tempo no dia seguinte que o alvorecer de agora fosse tão soturno, de cinza triste, prenúncio de maus acontecimentos que somente o muito querer dos seres humanos poderá o sentido alterar.
O velho marinheiros de cãs desgrenhadas e rebeldes, lobo do mar e pescador, aventureiro sem porto certo, senhor dos faróis como já lhe chamou quem sentiu algures do tempo que passa a necessidade de utilizar a sua luz para lhe iluminar o trilho da vida, caminhos de amores e de desamores, ficou estático perante a prometida violência dos desígnios da Natureza, não dando sequer conta da frieza que lhe trespassava a roupa e de mansinho lhe penetrava o corpo.
Viu as artes saírem ao mar, loucura pensou para si, e no afastamento da beira-mar fazerem os lanços das redes emalhadas ainda há pouco, com malhas tecidas na expectativa de boa pescaria. Sentiu, então, o agreste caminhar do violento temporal que velocidade ganhava conforme se deslocava para terra. Pensou uma vez mais na ousadia que fora os pescadores fazerem-se ao mar que se mostrava, cada vez mais, agitado e ameaçador.
Seus pensamentos vogaram paragens longínquas na procura da cor que matizasse o cinzento quase breu que o envolvia e sobre si parecia abater-se. Sabia, contudo, que teria a espera como companheira até à sétima onda do mar que enrolava no areal. Com ela viria a bonança o arco-íris o pote de ouro a magia das cores a pesca farta e os seus companheiros das artes. Como em tempos ancestrais eles contariam como uma bela mulher de cânticos doces e olhar atrevido havia surgido do seio das águas e transformado o cinzento em azul magnífico e a tempestade em fartura de peixe prateado.
Contariam aquela estória que ele tão profundamente conhecia.
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sábado, dezembro 29, 2007
"sei que partiste"
A vida sentida ao ritmo das ondas do mar tem um sabor diferente de qualquer outro, pelo conteúdo misterioso que envolve, pelas especiarias esquisitas que a condimento, pelo constante avançar e recuar cuja amplitude a Lua tanto influencia.
O velho marinheiro, cabelos brancos desgrenhados salgados pela maresia, passa horas a fio em cúmplice comunhão com o espraiar do mar na areia, ora parecendo um suave manto prateado, logo em rebentação forte pulverizando milhares de gotícolas.
Naquele dia o mar veio suavemente depositar-lhe aos pés uma garrafa mensageira...
“Caro Marinheiro
Sei que te foste, partiste, mas a vida de marinheiro é assim, não é? Um amor em cada porto, uma bebida em cada tasca, uma pintura em cada mural de cada cidade...
Por aqui ficará sempre a tua marca, dos teus pensamentos deixados ao vento num miradouro luminoso, pronto a receber os olhares e os amassos de quem por aqui passar, por aqui ficarei de olhos postos no Mar, não à tua espera, mas a recordar, a imaginar as novas aventuras, tu e o teu mar que tanto me assusta, que tanto me aflige.
Partir não é o fim, é a mudança, é mudar de rumo, é ver um mundo novo, foste tu quem já o disse...
Por aí, por esse mar, vais encontrar com certeza um sorriso enorme, assim como o teu, sorriso maduro de quem sabe que sorrir não é apenas um gesto simpático, é uma tradução de algo, uma tradução de um sentir!
Até já.”
A mensagem vinha datada de 4 de Janeiro do ano de 2007. Quanto mar já havia navegado para chegar ao destinatário? Duas gotas de água muito transparentes foram salgar ainda mais este mar tão azul.
O velho marinheiro, cabelos brancos desgrenhados salgados pela maresia, passa horas a fio em cúmplice comunhão com o espraiar do mar na areia, ora parecendo um suave manto prateado, logo em rebentação forte pulverizando milhares de gotícolas.
Naquele dia o mar veio suavemente depositar-lhe aos pés uma garrafa mensageira...
“Caro Marinheiro
Sei que te foste, partiste, mas a vida de marinheiro é assim, não é? Um amor em cada porto, uma bebida em cada tasca, uma pintura em cada mural de cada cidade...
Por aqui ficará sempre a tua marca, dos teus pensamentos deixados ao vento num miradouro luminoso, pronto a receber os olhares e os amassos de quem por aqui passar, por aqui ficarei de olhos postos no Mar, não à tua espera, mas a recordar, a imaginar as novas aventuras, tu e o teu mar que tanto me assusta, que tanto me aflige.
Partir não é o fim, é a mudança, é mudar de rumo, é ver um mundo novo, foste tu quem já o disse...
Por aí, por esse mar, vais encontrar com certeza um sorriso enorme, assim como o teu, sorriso maduro de quem sabe que sorrir não é apenas um gesto simpático, é uma tradução de algo, uma tradução de um sentir!
Até já.”
A mensagem vinha datada de 4 de Janeiro do ano de 2007. Quanto mar já havia navegado para chegar ao destinatário? Duas gotas de água muito transparentes foram salgar ainda mais este mar tão azul.
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domingo, dezembro 16, 2007
gaivota cúmplice
Manhã cedo, na tranquilidade do mês de Setembro, uma colónia de gaivotas deleita-se com o agradável espraiar das ondas nas doiradas areias. Estão tranquilas mas em alerta aos movimentos dos seres humanos na zona envolvente. Ao mínimo movimento estranho levantarão voo para uma zona de maior calmaria.
À aproximação do fotógrafo, pesa as boas intenções com que este se aproxima, a colónia movimenta-se e resolve mudar de poiso para uma zona de maior tranquilidade. Á determinação do bando há duas gaivotas que resolvem não o acompanhar, deixando-se fotografar tranquilamente.
O fotógrafo insiste em recolher mais imagens. Clique, clique, clique. Uma das gaivotas que formava o par mais audaz resolve, então, ir juntar-se ao bando. A que ficou, olha a câmera directamente, faz pose qual modelo em desfile de moda. Olha uma vez mais e procura oferecer um ângulo mais fotogénico.
Finalmente resolve também partir, mas antes oferece ao fotógrafo a oportunidade única de captar uma imagem plena de movimento e de intenção. O fotógrafo sentiu quanta cumplicidade tinha havido entre ele e as gaivotas, especialmente esta última, pelo que sentiu a necessidade imperiosa de partilhar esta experiência.
À aproximação do fotógrafo, pesa as boas intenções com que este se aproxima, a colónia movimenta-se e resolve mudar de poiso para uma zona de maior tranquilidade. Á determinação do bando há duas gaivotas que resolvem não o acompanhar, deixando-se fotografar tranquilamente.
O fotógrafo insiste em recolher mais imagens. Clique, clique, clique. Uma das gaivotas que formava o par mais audaz resolve, então, ir juntar-se ao bando. A que ficou, olha a câmera directamente, faz pose qual modelo em desfile de moda. Olha uma vez mais e procura oferecer um ângulo mais fotogénico.
Finalmente resolve também partir, mas antes oferece ao fotógrafo a oportunidade única de captar uma imagem plena de movimento e de intenção. O fotógrafo sentiu quanta cumplicidade tinha havido entre ele e as gaivotas, especialmente esta última, pelo que sentiu a necessidade imperiosa de partilhar esta experiência.
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segunda-feira, novembro 19, 2007
chamamento do mar agreste
O chamamento chegou de mansinho. Primeiro, um longínquo “arrulhar de rola”, suave e tranquilo. Logo depois, num crescendo veloz e acentuado, um bru-á-á cada vez mais intenso. Os sentidos despertos por um ruído imenso vindo do fundo dos tempos entenderam o chamamento do mar de Outono na vivência da enorme amplitude das marés.
Vencida a falésia, arriba fossilizada de milhões de anos, encontramos o mar cinzento que em ondas agrestes e vivas se transformava no caminho do areal numa sinfonia de prata. Argêntea brancura pois a gandaia há muito fora deixada cá bem acima, aquando da preia-mar.
Rebentação forte, ruidosa, que o mar é macho no dizer dos pescadores das artes que nestes tempos invernosos, no Outono vividos, não se podem fazer à faina na procura do sustento diário. É tempo de recuarem às hortas, pescadores feitos agricultores, que a filharada tem que se alimentar.
Levantando o olhar para o topo da arriba, onde o pinhal vem beijar a beira da falésia, somos surpreendidos por uma verdadeira dança nupcial executada de forma espantosa pelos corvídeos do pinhal em época de acasalamento. Várias dezenas de corvos executam o seu acasalamento em pleno voo, emitindo os seus vocálicos até à exaustão.
Entre os corvos acontece uma relação triangular, pois quando se verifica a carência de macho, as fêmeas ritualizam entre si o acto do amor, cortejando-se e seduzindo-se mutuamente até que uma das fêmeas passa a exercer o papel masculino. Fruto desse amor a outra fêmea choca os ovos, que por serem estéreis não resultam.
Mas o romance não termina aí. Quando surge o macho, mesmo que atrasado, e começa a namorar uma das fêmeas já em estado de acasalamento “homossexual”, não conseguirá desligar as duas amadas. Terá que compor com elas um “menage à trois”, tendo que cuidar de duas ninhadas dessa relação resultantes.
É irresistível o chamamento do mar agreste na invernia da Praia do Sol.
Vencida a falésia, arriba fossilizada de milhões de anos, encontramos o mar cinzento que em ondas agrestes e vivas se transformava no caminho do areal numa sinfonia de prata. Argêntea brancura pois a gandaia há muito fora deixada cá bem acima, aquando da preia-mar.
Rebentação forte, ruidosa, que o mar é macho no dizer dos pescadores das artes que nestes tempos invernosos, no Outono vividos, não se podem fazer à faina na procura do sustento diário. É tempo de recuarem às hortas, pescadores feitos agricultores, que a filharada tem que se alimentar.
Levantando o olhar para o topo da arriba, onde o pinhal vem beijar a beira da falésia, somos surpreendidos por uma verdadeira dança nupcial executada de forma espantosa pelos corvídeos do pinhal em época de acasalamento. Várias dezenas de corvos executam o seu acasalamento em pleno voo, emitindo os seus vocálicos até à exaustão.
Entre os corvos acontece uma relação triangular, pois quando se verifica a carência de macho, as fêmeas ritualizam entre si o acto do amor, cortejando-se e seduzindo-se mutuamente até que uma das fêmeas passa a exercer o papel masculino. Fruto desse amor a outra fêmea choca os ovos, que por serem estéreis não resultam.
Mas o romance não termina aí. Quando surge o macho, mesmo que atrasado, e começa a namorar uma das fêmeas já em estado de acasalamento “homossexual”, não conseguirá desligar as duas amadas. Terá que compor com elas um “menage à trois”, tendo que cuidar de duas ninhadas dessa relação resultantes.
É irresistível o chamamento do mar agreste na invernia da Praia do Sol.
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quinta-feira, novembro 15, 2007
areias
Deixa-me contar-te um segredo...
Um dia, já lá vão muitos anos [que nestas coisas do tempo que passa um ano pode parecer uma chispa, como um segundo uma eternidade] numa das muitas conversas que sempre tenho com o “nosso” mar falei-lhe numa Ninfa do Tejo que amava guardar areias de todas as praias, de todos os rios e ribeiros.
O “nosso” mar apaixonou-se pela tal Ninfa que tanto amava as areias, as mesmas que o mar acariciava desde tempos imemoriais, no seu continuado e doce espraiar, desígnio marcado para todo o sempre, ao sabor da influência da força das marés e dos ciclos lunares que acompanham a vida e as vivências, o sentir e os sentimentos.
O “nosso” mar sabia, contudo, que ali por cerca da Trafaria, perto de Alma(da) ou de A(l)mada, existia uma barreira natural intransponível, pelo Povo chamada “quebra do mar”, “onde o Tejo beija o Mar”... e os namorados procuram imitar quando a Primavera dá os seus primeiros sinais.
Então, segredou-me o “nosso” mar: “Pede à Ninfa do Tejo que guarde sempre junto das areias que tanto me confortam ao ritmo das marés, algumas palavras, mesmo sentires que eu um dia possa conhecer no Grande Areal da Caparica”.
Muitas vezes, no passar dos tempos, escritos de amor foram vistos gravados nos amplos areais e que somente o espraiar das ondas em espuma prateada tinha capacidade de apagar.
Lá no alto da arriba, no limite dos jardins do Convento dos Capuchos, sobranceiros ao mar azul, os “Olhares” do poeta Neruda acompanham com compreensão este diálogo que é paixão, como o poeta tão bem entendia lá pelas lonjuras do Pacífico.
Um dia, já lá vão muitos anos [que nestas coisas do tempo que passa um ano pode parecer uma chispa, como um segundo uma eternidade] numa das muitas conversas que sempre tenho com o “nosso” mar falei-lhe numa Ninfa do Tejo que amava guardar areias de todas as praias, de todos os rios e ribeiros.
O “nosso” mar apaixonou-se pela tal Ninfa que tanto amava as areias, as mesmas que o mar acariciava desde tempos imemoriais, no seu continuado e doce espraiar, desígnio marcado para todo o sempre, ao sabor da influência da força das marés e dos ciclos lunares que acompanham a vida e as vivências, o sentir e os sentimentos.
O “nosso” mar sabia, contudo, que ali por cerca da Trafaria, perto de Alma(da) ou de A(l)mada, existia uma barreira natural intransponível, pelo Povo chamada “quebra do mar”, “onde o Tejo beija o Mar”... e os namorados procuram imitar quando a Primavera dá os seus primeiros sinais.
Então, segredou-me o “nosso” mar: “Pede à Ninfa do Tejo que guarde sempre junto das areias que tanto me confortam ao ritmo das marés, algumas palavras, mesmo sentires que eu um dia possa conhecer no Grande Areal da Caparica”.
Muitas vezes, no passar dos tempos, escritos de amor foram vistos gravados nos amplos areais e que somente o espraiar das ondas em espuma prateada tinha capacidade de apagar.
Lá no alto da arriba, no limite dos jardins do Convento dos Capuchos, sobranceiros ao mar azul, os “Olhares” do poeta Neruda acompanham com compreensão este diálogo que é paixão, como o poeta tão bem entendia lá pelas lonjuras do Pacífico.
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