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sexta-feira, junho 25, 2010

belarmino

Belarmino foi enganado muitas vezes.
Outras tantas se enganou a si próprio.

Belarmino, Belarmino Fragoso, foi boxeur criado nos ginásios do Clube Recreativo da Mouraria, perto do qual ele vivia. Poderia ter sido um dos “grandes” do boxe em Portugal mas toda a sua vida desportiva foi joguete de interesses pouco claros que giram à volta deste desporto. Foi, a maior parte das vezes, colocado na posição de ser um “saco de levar porrada”.

Fernando Lopes aproveitou a sua vida atribulada, para realizar um filme-documentário sobre a sua vida, Belarmino, contrastando a vida dos ringues com a sua modesta vivência de cidadão, com muitas dificuldades financeiras. Belarmino Fragoso sempre pensou que com isso se havia transformado num artista de cinema.

Curiosamente na WikipediA existe uma entrada para Belarmino - filme e nenhuma entrada para Belarmino - homem.

Belarmino foi enganado muitas vezes. Transformaram um potencial campeão num “saco de levar porrada”. Outras tantas, se enganou a si próprio. Por aproveitarem a sua imagem dorida para um filme, viu-se actor de cinema.

Decorria o ano de 1965, no cemitério da Amadora, realizavam-se filmagens de um filme de cujo nome perdi o rasto com alguns actores portugueses e com Melina Mercuri, no auge da sua carreira.

A um canto, à sombra de um cipreste, encontrava-se um homem com ar acabado cuja presença todos pareciam ignorar. O Fotógrafo ia colhendo algumas imagens quando esse homem a ele se dirigiu:

“_O senhor importa-se de me tirar uma fotografia junto da Melina Mercuri?”

Era o Belarmino, o Belarmino Fragoso!

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sábado, abril 10, 2010

sete palmos de terra e um caixão

No ano de 2005 publiquei na Oficina das Ideias a resposta a um inquérito, como tantos outros que por vezes funcionam ao estilo de “meme”, onde numa questão sobre que livros levaria para uma ilha deserta, indiquei entre outros:

Sete Palmos de Terra e um Caixão, de Josué de Castro, edição Seara Nova – Um ensaio sobre o nordeste do Brasil, uma área explosiva. O autor debruça-se sobre os problemas sociais e políticos de uma zona onde a fome impera. Muito antes dos recursos turísticos passarem a ser explorados o dia-a-dia do nordestino era partilhado com a seca e os problemas alimentares.

Curiosamente, muitos jovens brasileiros nordestinos não recordam este autor e a sua obra e muitas das referências às terríveis secas do Nordeste Brasileiro deixaram de fazer sentido, quiçá devido às alterações climatéricas.

Josué de Castro nasceu a 5 de Setembro de 1908, tendo falecido em 1973, médico pernambucano, o primeiro a tratar a questão da fome como uma ameaça à soberania nacional. O problema da fome, fome real, que passados mais de 30 anos sobre este diagnóstico, continua a ser uma realidade para muitos portugueses.

Josué de Castro foi um lutador não só contra a fome de alimentos, como igualmente contra a fome do conhecimento e da liberdade. Sua filha Ana Maria, socióloga de formação afirma “As novas gerações estão tendo a oportunidade de conhecer a lição de um brasileiro que nasceu pobre e começou a denunciar com ênfase o fenómeno da fome, que não é natural, mas uma criação do homens”.

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sexta-feira, abril 02, 2010

o soldadinho de chumbo

Faz hoje 205 anos que nasceu em Odense, na Dinamarca, Hans Christian Andersen. Filho de família modesta, o pai era sapateiro, veio a celebrizar-se como escritor de contos de fadas, muito embora tivesse escrito excelentes peças de teatro, canções patrióticas e muitos outros contos e histórias.



Imagem “Google” alusiva à comemoração do aniversário


Faz parte do nosso imaginário de sonhos contos como “O Patinho Feio”, “A Caixinha de Surpresas”, “O Soldadinho de Chumbo”, “A Pequena Sereia” e tantos outros.

Uma das facetas menos conhecidas entre nós da vida de Hans Christian Andersen é o facto de ter sido um dos maiores viajantes do século XIX. A convite dos irmãos José e Jorge O’Neill viajou para Portugal onde permaneceu de 6 de Maio a 14 de Agosto de 1866. Visitou, além da cidade de Lisboa, Setúbal e a Arrábida, Aveiro, Coimbra e Sintra.

No espólio de Hans Christian Andersen existem diversas peças referentes a essa passagem por Portugal, como sejam um pedaço de cortiça levado de Setúbal, a conta das despesas da viagem e o passaporte com o carimbo da vinda a Portugal. Além disso, diversas cartas foram escritas para amigos seus com as impressões da viagem e enviadas de Portugal.

Hans Christian Andersen deixou o relato da viagem na sua obra “Uma Visita em Portugal em 1866” de onde extraiu um resumo que consta no seu livro autobiográfico “História da Minha Vida”.

Escreveu Hans Christian Andersen: “As janelas do meu quarto dão precisamente para […] uma parte do Vale de Alcântara, sobre o qual, de construção arrojada e grandiosa, com arcos de altura vertiginosa, se estende o grande aqueduto: “Os Arcos das Águas Livres”. […]”



O Aqueduto das Águas Livres e o Vale de Alcântara





Para saber mais:
Wikipedia
Andersen em Portugal, por Silva Duarte

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domingo, maio 10, 2009

o meu amigo arnaldo

O meu amigo Arnaldo dizia comovido para os muitos que o estavam a ouvir, com a voz apanhada pela emoção que não pela falta de convicção do seu pensamento: “Não sou doutor mas como eles falo com o que aprendi no associativismo”. Foi operário metalúrgico, pouco andou na escola, mas muito aprendeu nessas autênticas universidades que são as colectividades.

Universidades da vida, do sentir colectivo, da camaradagem e da solidariedade, onde se “formaram” homens de sentir democrático, lutadores contra a ditadura pela defesa colectiva de uma vida melhor. Não são políticos carreiristas que procuram o seu bem-estar pessoal, os benefícios do poder. São homens de corpo inteiro que completos se entregam à melhoria do bem comum.

O meu amigo Arnaldo foi operário metalúrgico, quase duas dezenas de anos emigrado em alpinas terras, que assim a penúria de um País adiado o obrigou a fazer. Depois das horas de árduo trabalho sempre encontrou tempo para o colectivismo e com o seu amor clubista ajudar a fundar uma “Casa do Benfica” em terras do longe e do frio.

Não se limitou, por certo, a sua actividade a tão nobre objectivo de reunir e ocupar os tempos livres dos portugueses distantes. Com ele conviveram e procuraram apoio e ajuda muitos portugueses obrigados a emigrarem, exilados numa terra agreste, perseguidos na sai própria terra por lutarem contra uma ditadura opressora, lutarem pela melhoria de vida sua e dos seus.

Logo após a gloriosa alvorada do vinte e cinco de Abril de 1974, quando as notícias das certezas a terras distantes chegaram, reuniu ao seu redor gente de pensar e de sentir futuro e esperança e criou uma “Associação Democrática” que agora à luz do dia pudesse defender os interesses dos portugueses perdidos e, agora, encontrados.

Passaram mais trinta e cinco anos, amadureceu na vida mas não no ímpeto criativo de colectivamente defender os justos desejos de um Povo que em construção continua, na esperança de um dia haver obra acabada e quando falarmos em globalização todos entenderem que se trata de globalização social e de solidariedade. Por isso mesmo, hoje e agora, o ouvimos afirmar de viva voz, emocionada, contudo, que “Sou doutor formado na universidade do colectivismo e do associativismo”.

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quinta-feira, abril 16, 2009

simplesmente luísa

Um dia, caminhava eu ali para os lados do Pragal, metido com os meus próprios pensamentos, quando fui desperto por um ternurento quadro familiar. Com o tempo agreste, uma jovem mulher, modestamente vestida, puxava, literalmente puxava, pelos seus rebentos que ia levar à escola.

Cena bonita de ver. Prestei um pouco mais de atenção. A jovem mulher, já não tão jovem assim, não muito alta, desembaraçada, deixou-me pasmado de surpresa. Era a Luísa Basto!

A mais bela voz portuguesa da actualidade, na minha modesta opinião, ali estava num ternurento quadro familiar quando eu sempre esperava vê-la actuar nos melhores palcos nacionais e internacionais.

Com uma formação de canto ímpar, obtida em Moscovo, foi voz e imagem da Revolução dos Cravos. Actuou com os melhores artistas dos anos setenta do século passado nos muitos espectáculos de “canto livre” que levaram música onde até então nunca tinha chegado neste nosso país tão pequenino.

Depois foi silenciada. Ignorada pelos órgãos de comunicação social. Lançada ao ostracismo pelas editoras discográficas, cantava para os amigos no restaurante que tem no Pragal e onde se mantém uma homenagem permanente a um grande homem das letras: Manuel da Fonseca.

A Luísa continuou a lutar, a lutar com a sua maravilhosa voz, temperada como o aço, fruto da luta diária dos operários e das famílias que vão caminhando para a penúria de uma sociedade em decadência. Mas a Luísa continuou a lutar.

Conseguiu gravar um disco de fados, cantados com alma e sentir, que rapidamente se esgotou e que a editora não voltou a reeditar. Luísa não poderia nunca ser disco de ouro, sequer de um metal menos nobre como a prata. Mas Luísa continuou a lutar.

Dois mil e três vai foi o seu ano de glória. Vinte e nove anos depois de ter regressado a Portugal. Felipe La Féria escolheu LUISA BASTO para encarnar a figura de Amália Rodrigues no seu espectáculo Amália, para a apresentação no Casino Estoril.

Bravo Luísa Basto!



Comemora-se hoje o Dia Mundial da Voz

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terça-feira, abril 14, 2009

josé franco, o barrista

Já passaram quase quatro dezenas de anos desde que eu, timidamente, entrei pela primeira vez na oficina de oleiro de José Franco a convite de um amigo, seu vizinho na então aldeia do Sobreiro, ali para as bandas da Ericeira. A minha timidez era devida ao respeito que a obra de José Franco já me merecia do conhecimento que dela ia tendo.

Um sorriso aberto foi a resposta à apresentação, parando momentaneamente a tarefa de acariciar o barro que lhe tomava mais de doze horas por dia, para logo continuar. Lá me foi dizendo: “_Vai tomar aqui uma ginjinha que é de estalo... foi feita por mim”. Esse dia foi totalmente passado no que era então o embrião da hoje muito turística “Aldeia Saloia” de José Franco. Ainda recordo no palato o sabor de umas divinais iscas de porco frigidas em banha, manteiga de porco rosada como então se dizia, preparadas com arte pela irmã do oleiro para o nosso almoço.

Conversamos primaveras a fio naquele passar de tempo despreocupado onde amizades se sedimentam para a vida. Um dia fui surpreendido com uma pergunta do oleiro José Franco: “_... e o amigo qual é o seu trabalho?”. Não foi fácil a resposta sobre uma actividade que era emergente em Portugal, a informática que sucedia à mecanografia.

Deu-se por satisfeito o artista quando me disse: “_Quero fazer uma peça que signifique o seu trabalho para lhe oferecer em Abril”. Nesse glorioso mês, decorria o ano de 1977, aquando da realização do Mercado de Abril, mostra de artesanato durante anos vivida à beira do rio Tejo, lá esperava por mim, o Alfarrabista.


o Alfarrabista, de José Franco, anos de 1976-77


Milhares de peças de olaria saíram da magia das mãos de José Franco. Com grande pendor religioso era esta a temática preferida do artista que nunca perdeu, contudo, a sua simplicidade e o sentir da sua origem no Povo. Foi idolatrado por figuras de vulto, uma forte amizade ligava-o ao escritor Jorge Amado que sempre que vinha a Portugal o visitava e com ele tomava uma ginjinha.

Ano após ano fazia crescer a sua “Aldeia Saloia”, miniaturas com movimento produzido pela água corrente, imagens da vida rural da região saloia. A religiosidade sempre presente não impedia alguns devaneios artísticos de cariz pagão, como este “burro a partir a loiça toda” que não tendo passado de um “ensaio” é uma peça única que um dia o mestre oleiro me ofereceu.


“burro a partir a loiça na própria olaria”, de José Franco, anos 80 do século XX

A última vez que me encontrei com José Franco decorria o ano de 2002, no mês de Setembro, e lá o fui encontrar nos seus 80 anos de idade a dar vida a mais uma das suas incomparáveis figuras. Pouco tempo depois, nas voltas que a vida dá, foi obrigado (só o poderia ter sido) a afastar-se do seu mundo, da sua oficina de oleiro, sendo “internado” num lar para idosos em Mafra.

José Franco na sua oficina de oleiro, Setembro de 2002


Muito recentemente escrevi sobre José Franco lavrando o meu desagrado por uma inconcebível troca de autoria de peças religiosas criadas pelo artista e expostas no museu da Igreja de S. Vicente de Fora: “Já na parte final do século XX encontrámos uma vitrina onde estão expostas duas peças atribuídas a Francisco Franco, quando na verdade são obras incomparáveis do barrista de excepção que é José Franco. Tivemos oportunidade de alertar para o facto quem de direito, esperando que muito em breve seja reposta a verdade da autoria dessas duas excelentes peças de olaria de cariz religioso. É incomparável a marca do barrista José Franco, a minúscula florinha branca.”





José Franco, oleiro e barrista de excepção faleceu hoje no Hospital de Santa Maria
JOSÉ FRANCO continua vivo na Oficina das Ideias

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

do chimpanzé ao homem

Faz hoje 200 anos, concretamente em 12 de Fevereiro de 2009, nas em Inglaterra, na cidade de Shrewsbury, aquele que viria cinquenta anos mais tarde a revolucionar todo o pensamento humano no que diz respeito à concepção do mundo natural.

Charles Darwin

Em 1859 publica a sua obra fundamental, “A Origem das Espécies”, que se esgota em poucos dias, tal era já a sua fama quanto às teorias da selecção natural das espécies e dos processos de evolução, para o que muito contribuiu uma viagem realizada anos antes à volta do Mundo e que durou cerca de cinco anos.

Viajou a bordo do navio Beagle, tendo feito escalas em muitos portos da rota, tais como Argentina, Patagónia, terra do Fogo, Ilhas Galápagos e Nova Zelândia, onde teve oportunidade de conhecer gentes e recolher materiais fundamentais para o estabelecimento das suas teorias.

Grande polémica estabeleceu-se no mundo científico, e mesmo no político e religioso, quando publicou a obra “A Evolução do Homem” que explica a evolução do homem a partir de um ser ancestral único e que contrariava o pensamento instituído de que o ser humano seria um excelso do Universo.

No rodar da “slot machine” do tempo coincidiram neste ano de 2009 factos e comemorações extraordinárias que levam as entidades que normalmente se encarregam de evidenciar estes factos a terem grandes dificuldades.

2009 - Ano de Darwin
2009 – Ano da Astronomia
2009 – Ano de Galileu

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