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sexta-feira, agosto 04, 2006

as conchinas da maré baixa

Acontece na época de Verão a terminar, quando o equinócio se anuncia e as chamadas “marés vivas” antecipam a sua actividade, fazermos grandes caminhadas à beira-mar, na maré vasa que o mar havia “batido” forte na noite anterior, deixando a doirada areia dura, plana e a fulgir intensamente de doirado.

A maré realiza nesse tempo as suas maiores amplitudes, que em tempos de maré viva a distância entre a preia-mar e a baixa-mar é imensa, recuando as águas azuis transparente desse mar tão belo até locais onde no restante do ano a areia se não vê.

Nesse amplo espaço, tapete doirado e macio é bom caminhar, observando os marisqueiros com seus apetrechos próprios a recolher enormes conquilhas amarelas de sua cor e as gentes mais idosas a deliciarem-se na procura do “tesouro” entre a gandaia que o mar da noite depositou na areia.

Na expectativa de encontrarem um fio de oiro ou um anel de precioso metal que alguém mais distraído ou na refrega de um amor vivido tenha perdido em tempo de veraneio, sempre acabam por encontrar uma moeda de prata que resistiu escondida na areia, embaciada pela erosão da areia e pela acção do salitre do mar, outras vezes moeda de cobre completamente corroída pois o mar não respeita metais não preciosos.

Nessas caminhadas, na tranquilidade dos passos dados, na musicalidade do “bru-à-à” das ondas no seu eterno namoro com a areia, pequenas conchas, sobras de bivalves há muito perdidos e a quem serviam de casa e de protecção, quase pedem para serem recolhidas pelos passantes.

E que belas elas são...

De tamanho reduzido, dos poucos milímetros até aos dois centímetros na sua maior dimensão, são raiadas em linhas arqueadas em diversas tonalidades de castanho e ocre que convergem para o ponto de união das duas conchas que constituem o bivalve.

São em si mesmas obras de arte, com o traço único da Natureza, e quando colocadas lado a lado transformam-se num testemunho fantástico duma caminhada de encantamento pelas doiradas areias, acompanhada do lado do Nascente por uma bela arriba que o passar do tempo e o recuo definitivo do mar fossilizou e do lado do Poente esse mar imenso, pintado em laivos de azul e de verde, prateado no constante espraiar da ondulação.

No regresso desta caminhada de vai e vem o acenar dos marisqueiros, que a manhã correu bem e recolheram uma teca de conquilhas que irá render bom dinheiro junto dos restaurantes da vila, importante para a subsistência da sua família, e outro acenar dos caçadores de tesouros que amanhã voltarão, se de feição estiver a maré, pois um dia encontrarão as moedas de oiro que pairam no seu imaginário.


Comments:
Parece serem todas iguais.
Diz quem sabe que não há uma sequer igual.
Ai esta natureza...
 
É inevitável brincar com as conchinhas sempre que me apanho na praia... inevitável procurar as mais pequeninas e colocá-las na ponta da toalha... inevitável senti-las e admirá-las... inevitável agradecer-te este momento e ainda bem que existem inevitáveis e isso!
 
Caro Amigo Reporter. Uma excelente observação... Enriquecedora! Um abraço.
 
Querida São. Sensibilidade na suavidade da pele. Todos os anos acrescento uma pequena conchinha num frasquinho de vido, e de vida, que contém os aniversários de uma grande amiga. Representa que vou à praia, que me lembro dela nesse dia, que continuamos os dois na senda da vida. Beijinho.
 
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