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quarta-feira, maio 05, 2010

há sempre uma nova oportunidade

Segredos guardados no Rio
O rio guarda os segredos da profunda paixão do velho Marinheiro, barba branca e cabelo desgrenhado, pela mais bela Tágide, olhos profundos e sorriso doce



O velho Marinheiro aparentava sinais de preocupação, enquanto contemplava o firmamento, a linha do horizonte, onde há pouco o Sol se escondera, no seu aparente movimento resultante do continuado avançar do Mundo.

Mostrava-se apreensivo pela súbita alteração do movimento das nuvens, momentos antes suave e tranquilo e que agora em turbilhão inesperado parecia querer revolver todas as massas de água em cúmulos constituídas.

Mantendo ainda tonalidades avermelhadas do recente pôr-do-sol resultantes, o céu tomava rapidamente cambiantes acinzentadas e, logo depois, de profunda acastanhada negritude. A tempestade ameaçava desabar sobre o mar e quebrar o tranquilo fim de tarde, ainda há pouco vivido.

O mar encapelado e o bru-á-á da rebentação, assustadoramente ouvido no topo da falésia, nas imediações do Convento dos Capuchos, onde o velho Marinheiro se recolhera, eram sinal de borrasca iminente.

Em terra, as avezitas esvoaçavam errantemente, na ausência do equilíbrio de pressão atmosférica tão necessário à suavidade do seu planar. Pressentiam momentos difíceis que a brisa marítima a soprar fortemente já anunciava.

O velho Marinheiro foi invadido por tremenda melancolia. Sabia que não iria ter o afecto da presença da mais bela Ninfa do Tejo, sua companheira de tantas andanças por estas e outras paragens.

A Natureza continuava a ser a sua grande mestra nos ensinamentos da vida, o mar seu confidente... Sabia, aprendia a cada dia de vida, que a luz, a luminosa tranquilidade, é algo fugaz e que a ela sempre se seguem momentos de escuridão, de tristeza, de solidão...

Ainda parecia ouvir o doce murmurar da mais bela Ninfa do Tejo: “_Meu querido”. A tempestade já distorcia estas suaves palavras que agora se tornavam mais nítidas, com sentido tão diverso: “_É imperioso que me afaste! Marinheiro, prendeste-te demasiado a mim, que sou pertença do Rio...“.

Um fugaz brilhar no fundo do olhar do velho Marinheiro poderia significar um grande ensinamento de vida que a sua idade lhe trouxera: “há sempre uma nova oportunidade... esperança!”.

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terça-feira, abril 20, 2010

o sol e a lua

Horas passaram num sono profundo que o levaram às terras do longe. Horas? Talvez mesmo dias ou anos, quiçá décadas, que esta coisa do tempo contado, não é mais do que uma medida, um registo que máquinas mais ou menos complicadas determinam. O tempo que passa esse é outro, é aquele tempo sentido, que tanto parece eternizar-se, como se escapa como a areia entre os dedos da mão.

Acordou o velho marinheiro quando o Sol que há tempos já lhe batia no rosto se tornou presente pelo calor que desenvolvia na sua pele tisnada. O Sol com quem sempre partilhou os dias. Com a Lua sempre caminhou o encantamento das noites.

O murmúrio que o havia conduzido ao sono sonhado voltou a ouvir-se. Tinha a certeza que era o mesmo. Sabia da sua origem mas continuava a não vislumbrar o ente que tanto o maravilha no seu doce murmurar:

“-Não a vejo da minha janela mas sei que está lá! Assim como no meu ombro!”


O velho Marinheiro soergueu-se estremunhado, a esfregar os olhos, numa tentativa de vislumbrar o que os seus olhos se negavam em mostrar-lhe. O mar lá ao fundo estava tranquilo, quando antes estava tormentoso. Era sempre assim... aquela maviosa voz acalmava-o e ao mar azul, profundo.

Desejou que assim fosse para todo o sempre. Que a máquina de marcar o tempo parasse no momento mágico em que a voz da mais bela Ninfa do Tejo murmurava: “-Meu querido!” Que o sentir do tempo que passa fosse duma lentidão tal que o Sol e a Lua fundissem o seu brilhar num luminoso raio de Esperança.

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sábado, abril 17, 2010

da serra de sintra ao cabo espichel

Sentado no muro que delimita o Miradouro dos Capuchos, o velho Marinheiro olha longamente a linha do horizonte desse mar que sente tão seu. O vento forte que sopra do mar para terra fustiga-lhe o rosto rudemente o que parece não sentir, pensamentos perdidos no tumulto do mar agitado.

À sua direita, bem longe onde a bruma sobe do mar, a Serra de Sintra parece a guardiã de sentimentos profundos que Lord Byron tão poeticamente expressou em seus escritos nascidos da tranquilidade da serra, que não das suas paixões.

Para Sul uma linha marca a plataforma que entra mar dentro até chegar ao mítico Cabo Espichel. Não tarda, que ao sol poente raiem os primeiros fachos luminosos que o farol fará chegar às embarcações, qual guia no mar tormentoso.

À memória do velho Marinheiro ocorre, enquanto cofia a alva barba, tantos anos que já lá vão, a aflição que sentiu ao ver a embarcação em que navegava, seus companheiros e ele próprio quase serem tragados pelo mar alteroso. Terá sido a Senhora dos Navegantes que a todos salvou?

Vem desses longínquos tempos o pacto de fidelidade feito com o mar que hoje sente ser seu. Vem desses tempos passados a sua capacidade de entender o mar, no seu bru-à-à constante, mas também o de ouvir a maviosa voz de mulher que lhe povoa o sentir.

“_Tu és o meu marinheiro, o meu querido marinheiro...”
“_Sinto a Lua no meu ombro, tu marinheiro que és meu Sol...”

O marinheiro sentiu frio. O vento não só lhe fustigava o rosto violentamente, como passava através da sua roupa, arrefecia-lhe o corpo, mesmo a alma... Reparou, então, que o farol, lá longe em terras da Senhora da Pedra da Mu, dourava o firmamento com o seu facho luminoso. Sentiu respiração forte e cálida junto a si mas não viu ninguém...

Lembrou-se da “velha” rica de saberes e de eterna capa posta sobre os ombros que a lenda das gentes das redondezas regista. Lembrou-se do eterno Camões que de forma única cantou as Ninfas do Tejo. Lembrou-se da Senhora dos Navegantes.

E deixou-se dormitar na noite fria...

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quarta-feira, março 31, 2010

vermelha romã

segredos guardados no rio
O rio guarda os segredos da profunda paixão do velho Marinheiro, barba branca e cabelo desgrenhado, pela mais bela Ninfa do Tejo, olhos profundos e sorriso doce




O velho Marinheiro tem o sentimento, criado na longa vivência de coragem e muito querer que a vida do mar lhe ensinou, que há sempre uma nova oportunidade para quem luta denodadamente por um sonho que muito deseja ver realizado. Sabe, o tempo lhe ensinou, que toda a utopia pode um dia ser transformada em realidade pela força da vontade de transformação e de mudança.

O imobilismo nunca fez parte dos seus valores. O seu corpo e o seu sentir resultam de uma total entrega ao “mar com quem se confunde”. Foi esse o acordo há muito estabelecido nos tempos de navegar. Tal como as ondas, também a vida tem fluxos e refluxos. Tal como as marés, também a vida pode ser cheia de realização... ou vaza de concretização.

Mas existe sempre uma nova oportunidade...

O velho Marinheiro continua a desejar a presença, o conforto, a palavra amiga da mais bela Ninfa do Tejo. A mesma que um dia o encantou: “...e que vontade é esta que tenho de tentar saltar para dentro das tuas visões fixadas na tela... será o querer sair desta realidade? Provavelmente...”.

Sabia bem que dentro das suas visões a mais bela Ninfa do Tejo muito o enriqueceria na passagem pelas terras da magia, onde o mar beija ternamente as doiradas areias e se espraia numa carícia sensual, em acto de amor sentido.

Do bornal colocado à tiracolo retirou o velho Marinheiro uma romã avermelhada, fruto de reis e de princesas, fruto das moiras encantadas. Acariciou-a com mãos calejadas do tempo de marear, fê-la brilhar à intensa luz solar que se coava através das nuvens ligeiras. Uma deliciosa maçã de Roma que ofereceu à mais bela Ninfa do Tejo que dele se havia abeirado quando, debruçado sobre o rio, procurava o seu encontro.

“_Hummmm, acho que meti na cabeça que não gostava de romãs... por ficar com as mãos sujas [da casca]... mas assim com este aspecto de bagos vermelhos... até fiquei com água na boca!”

O velho Marinheiro sorriu... Sentiu o seu coração a vibrar quando vislumbrou uma réstia de felicidade no olhar doce e profundo da mais bela Ninfa do Tejo. Sabia-a pertença do Rio, mas sentiu infinitamente ser capaz de dar a sua própria vida pela felicidade dessa mágica mulher.

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terça-feira, março 09, 2010

sete, um número mágico

segredos guardados no rio
O rio guarda os segredos da profunda paixão do velho Marinheiro, barba branca e cabelo desgrenhado, pela mais bela Tágide, olhos profundos e sorriso doce



Naquele dia, em que o capricho do eterno rodar do tempo criou um número mágico, o velho Marinheiro, quando do alto do miradouro do Convento dos Capuchos olhava o mar profundo, onde este quebra com o Rio Tejo, teve uma maravilhosa visão.

Uma bela jovem, Tágides no dizer dos poetas, que da água do rio buscou suas formas onduladas pela brisa, do pomar da Caparica sua doçura de fruto maduro, pele suave ao tocar, ligeiro rubor do sol poente que logo voltará em toda a sua pujança.

_Tão jovem és nesta visão que me encanta...
_Venho do fundo dos tempos, mas o Tejo me ofertou 26 anos de idade agora cumpridos...
_Este teu velho amigo cumpriu 62 quando tu eras flor em botão...

O velho Marinheiro que intuitivamente “jogava” com números desde o seu tempo de marear, pensou: “26 + 62 = 88 > 16 > 7... SETE!”

_Mas este é um número mágico – murmurou – hoje que é dia 7 deste mês de Verão...
_Que dizes Marinheiro?
_Hoje é dia 7 deste belo mês de Verão... somando a tua idade (que o Rio Tejo te ofertou) mais a deste velho Marinheiro, obtemos o número 7, número mágico no meu sentir...
_Número que para mim tem, igualmente, muita magia...

O velho Marinheiro não resistiu a perguntar:
_Porque vieste até aqui, bela Ninfa do Tejo?
_Procurei encontrar alguém que partilhasse da alegria da Festa e “Encontrei olhares de outros sobre a minha festa, sobre a nossa... Sobre a festa que se quer de todos.Olhares como o teu são preciosos porque a "...questão é transforma-los...".

Ficaram sentados lado-a-lado contemplando esse Mar imenso, ali na quebra do Rio, onde o Tejo beija o Oceano. Sentiram-se companheiros “desta e de tantas outras andanças”.

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quarta-feira, outubro 21, 2009

a partilha da lua setembrina

segredos guardados no rio
O rio guarda os segredos da profunda paixão do velho Marinheiro, barba branca e cabelo desgrenhado, pela mais bela Ninfa do Tejo, olhos profundos e sorriso doce




O velho Marinheiro olhava com nostalgia os mares navegados e os tempos vividos na força da juventude, no muito querer, na paixão imensa, tal como a imensidão do mar que se agita com violência, para lá do areal, passadas as hortas da Costa e as casas, recordações dos tempos de veranear, nas funduras da Arriba Fóssil.

Perdera a noção do tempo que passa, na espera, longa espera, de que a imagem da mais bela Ninfa do Tejo lhe seja devolvida pelo seu mar, para que quebre a monotonia do azul de diversos cambiantes até onde o seu olhar alcança. Mas mais do que isso, o desejo inconsolável de escutar seus doces murmúrios, maviosa voz que interromperá o silêncio que dói no interior do seu ser.

Seu olhar acabou por perder-se para lá, muito para lá, da linha do horizonte. Sentiu-se leve como noutras circunstâncias lhe havia acontecido. No sentimento em que o sonho lhe absorve a consciência, sendo levado ao sabor das correntes de pressão atmosférica, como se peso não tivesse.

Voa no impulso de movimentos simples, o seu pensamento impele-o sobre os infindáveis mares, oceanos, para além das mágicas montanhas criadas na fantasia do querer viver maresias. Sempre o acompanha o odor dos jasmineiros.

O velho Marinheiro franziu o cenho, o olhar ganhou um brilho estranho, uma tristeza profunda atingiu o seu sentir. Recordou-se que num desajuste grande com a realidade da sua própria idade, ancião que é sem ter coragem de o assumir plenamente, havia poucos anos atrás mandado gravar no seu corpo uma imagem do “Sol de Gaudi” que ele próprio desenhara a partir de um azulejo do incomparável arquitecto catalão.

Uma fuga à idade, talvez.... Mas recorda sempre o comentário que ouviu a mais bela Ninfa do Tejo murmurar: “...um bonito Sol”, tendo acrescentado:”... podes não saber exactamente quem eu sou, mas tens uma bonita tatuagem na parte interior do teu braço...”.

A Lua brilhava todo o seu esplendor no firmamento. A mais bela Ninfa do Tejo dizia em doces palavras: “ De facto não sei qual o mistério, mas a Lua de Setembro é a mais bonita no ano. Em Sintra, no Monte da Lua, ela fica gigante!!! A lua é sempre bonita, mas em Setembro é muito mais! Obrigado por partilhares a "tua" Lua!”.

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