domingo, outubro 18, 2009
contemplação milenar
vigem ao douro internacional 4
Uma Terra de dois falares
É uma terra diferente, gente hospitaleira na tradição transmontana, mas com um sublime sentir de quem se compreende numa língua que mais do que palavras de bonito soar, é cultura ancestral acumulada com afecto e transmitida com a arte de saber dizer. É um Povo cúmplice no seu dizer. Língua mirandesa. Lhéngua mirandesa.
É uma terra diferente, gente hospitaleira na tradição transmontana, mas com um sublime sentir de quem se compreende numa língua que mais do que palavras de bonito soar, é cultura ancestral acumulada com afecto e transmitida com a arte de saber dizer. É um Povo cúmplice no seu dizer. Língua mirandesa. Lhéngua mirandesa.

Subimos até à zona histórica da cidade por avenida ladeada por canteiros de flores multicoloridas, percorrendo depois a rua do comércio onde é possível adquirir peças confeccionadas em burel, tecido grosseiro de lã, tradicional da região, até chegarmos ao Largo Dom João III e deliciarmo-nos com um interessante grupo escultórico, homem trajando “Capa de Honra” e mulher em traje de “ir ver a Deus”.

Já na Sé Catedral com um conjunto valioso de imagens religiosas a nossa atenção vai para o “Menino Jesus da Cartolinha”, hoje de verde trajado e de cartola preta.

A rua do comércio tradicional é cheia de interessantes pormenores arquitectónicos, sejam portais, janelas ou varandas como esta implantada no cunhal de um edifício

Praça-forte na defesa das linhas fronteiriças com o reino de Leão e Castela, Miranda do Douro esteve sempre sujeita a destruição e a cidadela é ainda hoje memória desses tempos conturbados

Vamos deixar a cidade de Miranda do Douro, mas não Terras de Miranda, pois iremos navegar durante algumas horas no Douro Internacional, desde o embarcadouro da Estação Biológica Internacional até à zona do Santuário Rupestre de São Mamede e à Rocha Redonda. Vamos partir de muito perto da Barragem de Miranda do Douro

Etiquetas: caderno de viagens, douro, miranda do douro
quarta-feira, outubro 14, 2009
capa de honra
imagem que vale oitocentas palavras
É frequente ouvir dizer-se que uma imagem vale mais do que mil palavras. As imagens do “Olho de Lince” valem somente oitocentas pelo que há que as fazer acompanhar por um texto de duzentas
No Largo D. João III, em Miranda do Douro, o conjunto escultórico representando um homem e uma mulher trajando tipicamente mirandês serve de mote a escrevermos sobre a Capa de Honra. Usada pelos homens ricos do Planalto Mirandês, muitos estudiosos referem o seu uso pelos boieiros, como protecção do frio e da chuva e para nela se deitarem quando permaneciam longo tempo nas serranias com o gado.
A Capa de Honra é confeccionada com cerca de 10 metros de burel – tecido de lã pisoado – constituída por capa, sobrecapa e capuz.
No Largo D. João III, em Miranda do Douro, o conjunto escultórico representando um homem e uma mulher trajando tipicamente mirandês serve de mote a escrevermos sobre a Capa de Honra. Usada pelos homens ricos do Planalto Mirandês, muitos estudiosos referem o seu uso pelos boieiros, como protecção do frio e da chuva e para nela se deitarem quando permaneciam longo tempo nas serranias com o gado.
A Capa de Honra é confeccionada com cerca de 10 metros de burel – tecido de lã pisoado – constituída por capa, sobrecapa e capuz.

A capa é comprida e ampla, cortada em viés, aberta na frente. A sobrecapa desce até à zona do cotovelo sendo toda bordada e pespontada terminando em franjas largas. O capuz, com capeto, inteiramente bordado, termina numa larga faixa, denominada Honra, cujo tamanho é representativo da riqueza e importância do utilizador. Esta também é bordada e pespontada, rematada com uma franja.
Supõe-se ter origem na capa de "Asperges" gótica, de raiz medieval de algum mosteiro Leonês. "Muito ornamentada de lavores nas bandas, gola – carapuça sui generis e rabicho que, por detrás, pende até meio dela, dando ao todo o aspecto de capa de asperges eclesiástica medieval”, como observa Trindade Coelho.
Supõe-se ter origem na capa de "Asperges" gótica, de raiz medieval de algum mosteiro Leonês. "Muito ornamentada de lavores nas bandas, gola – carapuça sui generis e rabicho que, por detrás, pende até meio dela, dando ao todo o aspecto de capa de asperges eclesiástica medieval”, como observa Trindade Coelho.
Etiquetas: duzentas palavras, miranda do douro, tradição
domingo, outubro 04, 2009
de cartolinha
Uma visita recente à sempre maravilhosa cidade de Miranda do Douro traz-nos de novo à conversa o tema da “cartolinha”, que resolvemos convosco partilhar segundo dois diferentes prismas.
Menino Jesus da Cartolinha
Da “tulha” das recordações da Oficina das Ideias trouxemos uma imagem desse célebre “menino” vestido de casaca e calça verde e com a faixa da condecoração a vermelho. Diz quem sabe que ele é vestido de acordo com a estação do ano ou com a época festiva religiosa do momento. Como sempre as duas faces de uma realidade: o pagão e o religioso.
Na frente da base da imagem a letra manuscrita dourada “menino Jesus DA CARTOLINHA” e, na face contrária escrito na mesma tinta “Mª DOURO”, Miranda do Douro, claro. Terá cerca de uma centena de anos esta imagem.
Menino Jesus da Cartolinha
Da “tulha” das recordações da Oficina das Ideias trouxemos uma imagem desse célebre “menino” vestido de casaca e calça verde e com a faixa da condecoração a vermelho. Diz quem sabe que ele é vestido de acordo com a estação do ano ou com a época festiva religiosa do momento. Como sempre as duas faces de uma realidade: o pagão e o religioso.
Na frente da base da imagem a letra manuscrita dourada “menino Jesus DA CARTOLINHA” e, na face contrária escrito na mesma tinta “Mª DOURO”, Miranda do Douro, claro. Terá cerca de uma centena de anos esta imagem.

Fomos, igualmente, fotografar a imagem original que se encontra na Igreja de Miranda - Matriz de Miranda do Douro e é devoção regional, tendo-lhe sido atribuídas honras e ordenado de capitão do exército português por vontade popular. Possui o mais importante guarda-roupa do imaginário português do qual faz parte uma inusitada cartolinha.
Traz à cintura uma espada que diz a lenda remontar aos tempos da Guerra da Restauração. Estando Miranda cercada pelos castelhanos, sem alimentos nem água, à beira da rendição se ouviu um grito galvanizador que agitou a turba mirandesa, que de espadas, lanças, espingardas e enxadas, machados e outros utensílios de trabalho caiu sobre os castelhanos que perante tamanha avalanche de gente e de força bateram em retirada. Quem tinha dado tão determinante grito? O Menino Jesus da Cartolinha, claro.
Traz à cintura uma espada que diz a lenda remontar aos tempos da Guerra da Restauração. Estando Miranda cercada pelos castelhanos, sem alimentos nem água, à beira da rendição se ouviu um grito galvanizador que agitou a turba mirandesa, que de espadas, lanças, espingardas e enxadas, machados e outros utensílios de trabalho caiu sobre os castelhanos que perante tamanha avalanche de gente e de força bateram em retirada. Quem tinha dado tão determinante grito? O Menino Jesus da Cartolinha, claro.

Promovido a capitão das tropas portuguesas, com direito a condecoração e a ordenado, sai à rua em procissão no Dia de Santa Bárbara, sim, a mesma de que nos lembramos quando troveja.
O Homem da Cartolinha
Mas encontrei uma outra “cartolinha” aqui na Oficina das Ideias. O Homem da Cartolinha é o Borda d’Água, é o homem dos saberes da natureza, da sua influência nas culturas e que nos disponibiliza “todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”. Pelo menos, desde 1812.
Os actuais editores, a Editorial Minerva, apelam a todos os leitores e alfarrabistas que tenham conhecimento de edições do Borda d'Água, quer em Lisboa quer no Porto, com data anterior a 1812 que de tal dêem conhecimento, pois o mistério da sua origem é merecedor de profunda investigação.
O Homem da Cartolinha
Mas encontrei uma outra “cartolinha” aqui na Oficina das Ideias. O Homem da Cartolinha é o Borda d’Água, é o homem dos saberes da natureza, da sua influência nas culturas e que nos disponibiliza “todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”. Pelo menos, desde 1812.
Os actuais editores, a Editorial Minerva, apelam a todos os leitores e alfarrabistas que tenham conhecimento de edições do Borda d'Água, quer em Lisboa quer no Porto, com data anterior a 1812 que de tal dêem conhecimento, pois o mistério da sua origem é merecedor de profunda investigação.

Etiquetas: borda d'agua, menino jesus da cartolinha, miranda do douro, tradição






