domingo, junho 13, 2010
santo antónio é de lisboa
Santo António nasceu em Lisboa, no ano de 1195, recebeu o nome de Fernando e os apelidos de Bulhões y Taveira de Azevedo. Reside os primeiros tempos da sua vida numa casa situada no largo fronteiro à Catedral de Lisboa, hoje Largo da Sé.
Não se pense, contudo, que a tradição de festejar o Santo António com a realização de Marchas Populares venha de tempos passados, seja tradição de fundamentos populares e genuínos. Tal como acontece com muitas outras manifestações ditas populares também as marchas nasceram duma acção de propaganda do Estado Novo onde pela batuta de António Ferro (responsável pela política cultural do Estado Novo) Leitão de Barros, à época director do Notícias Ilustrado, encenava as acções de “folclorização do Estado Novo”, conforme sábias palavras do investigador Daniel Melo.
Decorria o ano de 1932 e apresentavam-se a concurso na sala do Teatro Capitólio, no Parque Mayer, as marchas de três colectividades em representação dos bairros de Alto do Pina, Campo de Ourique e Bairro Alto.
Mas a história de vida de Fernando de Bulhões é outra bem diferente. Com 24 anos é ordenado sacerdote depois de ter frequentado a escola da Sé de Lisboa a partir dos sete anos, situação rara à época, de ter ingressado na Ordem dos Agostinhos no Mosteiro de S. Vicente de Fora e de durante 10 anos se ter dedicado à oração em Coimbra, já nessa época um importante centro cultural, no Mosteiro de Santa Cruz.
Após ter tido os primeiros contactos com franciscanos e o conhecimento posterior de que cinco franciscanos tinham sido martirizados em Marrocos, como consequência da tentativa de evangelizar infiéis, decidiu seguir-lhe os passos e ser um missionário e torna-se frade franciscano no Eremitério de Santo Antão dos Olivais, de Coimbra.
É recebido na Ordem com o nome de Frei António, enviado para as missões entre os sarracenos de Marrocos, conforme o seu desejo.
Problemas de saúde obrigaram-no a regressar à Europa. O navio de volta a Portugal foi levado pelos ventos para a Itália. Desembarcou na Sicília e dirigiu-se para Assis, onde se encontrou pela primeira vez com São Francisco permanecendo num eremitério na Itália. Durante este tempo, ocupou vários cargos, como o de professor em sua ordem na Itália e na França e também pregando nos lugares onde a heresia era mais forte.
O combate à heresia era feito não apenas através da pregação, mas também por meio de milagres espantosos. Sabia de cor quase todas as Escrituras e tinha um dom especial para explicar e aplicar as mais difíceis passagens. Em Rimini, os hereges impediam o povo de ir aos seus sermões. Então, apelou para o milagre. Foi à costa do Adriático e começou pregar aos peixes, que acorreram em multidão, mostrando a cabeça fora da água. Este milagre invadiu a cidade com entusiasmo e os hereges ficaram envergonhados.
Em 1229, foi morar com os seus irmãos franciscanos, perto de Pádua, no convento de Arcella, em Camposampiero, onde em 1231, acometido de uma doença inesperada, faleceu no dia 13 de junho, aos 36 anos de idade. Foi canonizado pelo Papa Gregório IX em 30 de Maio de 1232. Sendo até hoje o santo mais rapidamente foi canonizado. É um santo de grande popularidade, onde o povo costuma invocá-lo para encontrar objectos perdidos e auxiliar moças solteiras a encontrar noivos.
Entrando no espírito festeiro da data que agora passa deixamos aqui três quadras populares da autoria de trabalhadores desta Oficina:
“Santo António é de Lisboa ninguém o pode negar”
Ninguém o pode negar
Foi de Alfama à Madragoa
Para o fado ouvir cantar
Santo António é de Lisboa
Ninguém o pode negar
Boémio, de vida boa
Vai nos arraiais naufragar
Santo António é de Lisboa
Ninguém o pode negar
Sardinha assada com broa
Manjericos ao luar
Etiquetas: santo antónio, tradição
domingo, junho 06, 2010
rainha do mar

do equilíbrio e do saber
deixa em tuas águas navegar
aprender, viver, sonhar
em tua magia beber
Iemajá, a rainha do mar, no Centro Interpretativo de Belmonte
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domingo, maio 16, 2010
canja de cornos, por favor
Situada no designado Planalto Central Arraiano, a Vila de Soito acolhe no seu seio a única Casa de Comeres que partilha com a sua fiel clientela a celebrizada “Canja de Cornos”. Trata-se do Zé Nabeiro que com serviço e num ambiente familiar serve o afamado repasto.

Segredo existe na confecção deste petisco, como sempre acontece em circunstâncias semelhantes. Mas não errarei muito ao dizer que o principal é a qualidade de excepção da carne de vitela utilizada. Pedaços da faceira, carne que compõe a cabeça do “bicho”, há quem afirme ser a mais saborosa, cozinhada em fogo lento, na lenha que vem das memórias.
Fomos espreitar ao “fogo de chão” onde o caldeiro suspenso fervilhava a bom fervilhar…



Zé Nabeiro
Rua das Hortas, nº 9
6320-654 Soito [coord aprox = 40º 21’ 24’’ N; 6º 57’ 30’’ W]
Telefone para reservas: 271 605116
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sábado, maio 15, 2010
castelo das cinco quinas

Castelo de Cinco Quinas
Só há um em Portugal
Fica à Beira do Côa
Na Vila de Sabugal
Assim costuma rimar o Povo, especialmente os sabugalenses, evocando o facto da torre de menagem do castelo ter o formato incomum de um pentágono. Sabugal, hoje em dia, já foi elevado à categoria de cidade, mas a tradição mantém o dito nesta terra implantada num pequeno planalto da Serra da Malcata.
Conta, igualmente, a tradição de que teria sido na barbacã deste castelo o local onde teve lugar o famoso milagre das rosas tendo como protagonistas a Rainha Santa Isabel e o rei D. Dinis.
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quinta-feira, maio 13, 2010
dia da espiga
Quarenta dias depois da Páscoa comemora-se, no calendário cristão, a Ascensão de Cristo, quinta-feira da Ascensão, no dizer popular Quinta-feira da Espiga. Na tradição, é tempo de ir aos campos colher um ramo, em que a espiga de trigo é o elemento principal e que maior simbolismo contém.
Os ramos constituídos pelas espigas de trigo e por diversas flores silvestres e, em certas regiões, por um raminho de oliveira, simbolizam a fecundidade da terra e por ampliação do simbolismo, a abundância, a beleza, a paz, entre as pessoas e nos lares. O raminho do ano perdura dentro de casa até ser substituído pela “espiga” do ano seguinte.
Há quem atribua a sua origem a rituais do cristianismo antigo, relacionados com a benção dos primeiros frutos do ano, mas como acontece em tantas situações semelhantes o mais provável é tratar-se da apropriação cristã de antigas tradições pagãs associadas às festas em honra da deusa Flora que ocorriam nesta época do ano.
Representou, desde os tempos mais remotos, um momento mágico da vivência das gentes, pelo que tem de desabrochar da vida, da revitalização vegetativa. Do desejo da concretização de boas colheitas dos frutos resultado do eclodir primaveril.
Em tempos passados, as populações dependiam totalmente das condições atmosféricas, para as quais poucas defesas possuíam, pelo que era com ansiedade que aguardavam os resultados das novas colheitas. Quando eram boas havia lugar a uma autêntica explosão de sentires, era a festa.
Este é tempo de transição que teve o seu início no Equinócio da Primavera, e como todos os tempos de transição é tempo sagrado, pelo que é cheio de cerimoniais, de rituais, de festividades com as quais pretendiam os nossos antepassados remotos expulsar “definitivamente” o Inverno.
Durante séculos em todo o mundo mediterrâneo realizaram-se grandiosos festivais florais em que os jovens em idade casadoira se espalhavam pelos campos e, em alegre convívio cantavam e dançavam, e se enfeitavam com verduras e flores, num ritual ancestral de que o Dia da Espiga constitui, por certo, o seu herdeiro dilecto.
Poder-se-á dizer, então, que fazendo parte deste ciclo festivo da Primavera, a Quinta Feira da Ascensão, ou Quinta-feira da Espiga, corresponde à cristianização de uma sequência de festividades pagãs ligadas à celebração e consagração da natureza.
Em muitas regiões do País, especialmente no Sul, é festejado com tradição o “Dia da Espiga” com especial destaque para a Freguesia de Salir, no Concelho de Loulé, onde a festividade ganha foros de feriado local.
A Quinta-feira da Ascensão representa igualmente tempo de outros rituais e tradições, eventualmente, com raízes pagãs comuns. É assim que muitas regiões consideram este dia o Dia da Hora, pois é tradição dizer-se que entre o meio-dia e a uma hora depois do meio-dia, no tempo solar real, “as águas não correm nos ribeiros, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas das árvores se cruzam”.
Na aldeia da Esperança, no concelho de Arronches, é este dia considerado o “Dia do Leite. Os produtores de queijo ordenham o seu gado e oferecem o leite a quem o quiser.
Ainda hoje na vila da Ericeira, no concelho de Mafra, todo o comércio esteve encerrado e o Povo foi manhã cedo para a foz do rio Lizandro com seus farnéis e bom vinho para o tradicional piquenique anual. Entre o meio-dia e a uma hora depois do sol estar na vertical foi tempo de ir colher as espigas de trigo, os raminhos de oliveira, as papoilas e muitas flores campestres de cores variadas.
Simbologia do ramo da “espiga”
Espiga de trigo – pão
Malmequer – oiro e prata
Papoila – Amor e vida
Oliveira – Azeite e Paz
Videira – Vinho e alegria
Alecrim – Saúde e força
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sábado, maio 08, 2010
com krestin na aldeia de cerdeira
Passado algum tempo e percorridos poucos quilómetros a estrada termina abruptamente num pequeno largo onde se situa a igreja da Aldeia. A estrada não segue até à povoação por decisão expressa dos habitantes que preferem a tranquilidade à invasão do espaço habitacional por veículos automóveis.
Percorremos cerca de quinhentos metros que separam o adro da igreja da Aldeia entre castanheiros e carvalhos, os primeiros carregados de ouriços de castanhas a caminho da maturação. Quanto às bolotas dos carvalhos encontram-se espalhadas um pouso por todo o caminho.
À entrada da Aldeia uma fonte de água cristalina vinda das entranhas da serra corre permanentemente durante todo o ano, criando um pequeno ribeiro onde encontramos um dos habitantes da aldeia a lavar a loiça para o que utiliza detergente ecológico.
Procurámos a casa de Krestin. A escultora Krestin Thomas é alemã e vive na Aldeia de Cerdeira há cerca de 20 anos, com o marido e dois filhos. Aliás, os quatro e mais o jovem agricultor biológico constituem a única população permanente de Cerdeira.
No dia em que estivemos na Aldeia de Cerdeira encontravam-se lá somente seis pessoas, os cinco habitantes permanente e uma amiga.
A escultora Krestin cria, além de maravilhosas casas de xisto em miniatura, construídas da forma tradicional como o fazem com as casas reais, magníficas esculturas de madeira, tendo como base as madeiras da Serra da Lousã, especialmente, o castanho e a tília para as incrustações.

"Presépio", escultura de Krestin Thomas
Cerdeira = Cerejeira Brava.
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domingo, abril 04, 2010
ovos ou chocolate
Tempo de Páscoa é na liturgia cristã e de muitos outros credos religiosos, actuais e de tempos passados, a ressurreição, o nascimento, a nova vida, um começar de novo. Algo que é cíclico na vida das gentes de todas as regiões do Mundo, em todos os tempos.
A Páscoa é simbolizada pelo ovo que em si contém todas as noções de um recomeço, a partir “sabe-se lá de onde”. O que nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? Questão filosófica que se encontra arreigada no imaginário popular.
É tradição oferecer ovos na China. Há muitos séculos atrás os orientais embrulhavam os ovos em casca de cebola e cozinhavam-nos juntamente com beterraba. A cor dada pela beterraba entrava pelos interstícios das cascas de cebola criando desenhos suaves e estranhos. Os ovos eram oferecidos como presente na Festa da Primavera.
Este costume chegou ao Egipto. Tal como faziam os chineses, também os egípcios passaram a oferecer ovos no início da nova estação, no início da Primavera, onde começava um novo ciclo de vida.
Entretanto, os egípcios davam grande simbolismo aos animais, especialmente aos que viviam em comunhão nas suas casas, donde associavam o coelho ao símbolo da fertilidade. No antigo Egipto, o coelho simbolizava o nascimento e a nova vida. O mais importante é que a origem da imagem do coelho na Páscoa está na fertilidade que os coelhos possuem. E a Páscoa é reprodução, ressurreição, vida nova.
Após a morte de Jesus Cristo, aquando da expansão do Cristianismo, deu-se a absorção natural dos usos e costumes populares, donde os cristãos passaram a consagrar o hábito de oferecer ovos como lembrança da ressurreição e no século XVIII a Igreja adoptou-o oficialmente, como símbolo da Páscoa.
A evolução dos tempos, a “mão dura” da Igreja Católica que proibia, durante a Quaresma, a alimentação que incluísse ovos, carne e derivados de leite, o início do desenvolvimento da indústria de chocolate, por volta de 1828 e o avanço do mercantilismo explicam, no seu conjunto, a substituição de ovos naturais pelos de chocolate.
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quinta-feira, fevereiro 25, 2010
incenso que defuma

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terça-feira, fevereiro 16, 2010
o carnaval na charneca
Até à Implantação da República, a época do Entrudo, em particular nos meios rurais, era tenebrosa com brincadeiras perigosas, chegando mesmo a ser aproveitada, a coberto das máscaras, para se porem em prática vinganças, guerrilhas e armadilhas. (séculos XIX e XX)
Organizavam-se cegadas, na rua ou nas agremiações recreativas, desde o início do século XX. Os ensaios tinham lugar nas adegas e nos retiros, à mistura com muito vinho e fortes bebedeiras, como acontecia na adega do Mário Casimiro, na Charneca. Os cegantes percorriam os principais arruamentos da povoação, metendo-se com toda a gente, especialmente, com as raparigas solteiras.
Para saber mais:
Carnaval em Almada
Alexandre M. Flores
Edição Associação “Amigos da Cidade de Almada”
Fevereiro de 1998
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domingo, fevereiro 14, 2010
ano lunar do tigre
O Tigre é o terceiro signo dos 12 signos chineses e representa, fundamentalmente, a coragem. Segundo a tradição chinesa o destemido tigre protege a nossa casa dos três maiores perigos pelos orientais considerados: o fogo, os ladrões e os fantasmas.

A passagem do Ano Lunar, que tem lugar na Lua Nova, este ano a 14 de Fevereiro, à 2.51 horas (tempo de Lisboa), é o mais significativo, em alguns casos o único, feriado oficial da China, embora se prolongue por sete dias e é um misto dos festejos ocidentais do Natal e do Carnaval, aliás, oriundos da mesma génese pagã. Daí que se celebre nesta época a Festa da Primavera, do renascer, das sementeiras, da fertilidade.
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quarta-feira, fevereiro 10, 2010
o pescador e o "papagaio"

Aproximo-me, com curiosidade. O velho pescador aproxima-se de mim fazendo o caminho ao contrário. Cada passo que eu dou ele dá outro também. O tempo de aproximação entre nós reduz-se, assim, a metade.
“Boa tarde!”
“Boa tarde. Se eu lhe disser o que estou a fazer, você não acredita” – antecipou adivinhando a minha curiosidade.
“Então… o que está a fazer?”
“Estou a preparar um “papagaio” para ir com ele pescar”
Sorri. Incrédulo, na incerteza se o velho homem estava ou não a brincar comigo.
“Verdade?”
“Claro que é verdade. Mas eu já havia dito que você não iria acreditar”
“Acredito, pois. Então como vai pescar com esse “papagaio”?”
“Estive a aumentar o tamanho da cauda para aguentar melhor o vento que hoje está… Mais logo, pela noite, se o mar o permitir vou com ele à pesca”.
E lá me explicou tratar-se de uma “arte” proibida mas que as condições actuais da pesca, o muito mar desta época, e a “crise” assim o obrigavam. O “papagaio” é levado pelo vento e nele suspenso segue um aparelho de anzóis que depois mergulham na água devidamente engodados. Quando o peixe “picar” é só puxar.
“Ainda há quinze dias pesquei 40 quilos de robalo com este aparelho!” – concluiu a jeito de justificação e com orgulho pelo sistema que aperfeiçoou e utiliza".
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terça-feira, fevereiro 09, 2010
a taberna do faustino 2
Outrora terra de pescadores, a pesca é ainda hoje a base do rendimento dos seus habitantes, transformada num aglomerado de casas de veraneio e restaurantes de gosto duvidoso, por aqui se instalaram diversas companhas das artes piscatórias, num mar que pelo seu desenho costeiro é mais afável mesmo durante a invernia.
Há notícia de que nos anos 40 do século passado era ainda constituída por cabanas de colmo dispersas na faixa dunar, onde os pescadores viviam e iam à faina, primeiro de forma sazonal pegando-lhes fogo e abandonando-as em tempo de invernia e, depois, de um modo regular, estabelecendo-se aí pequenos núcleos familiares.
O pouco comércio existente à época resumia-se às tabernas do Camões e do Faustino, onde de tudo se vendia, normalmente para “pôr na conta” pois somente quando o tempo bom permitia a ida ao mar das companhas se obtinham parcos rendimentos para pagar o que estava em dívida.
No pós-guerra, em meados dos anos 40 de século passado as carências de bens essenciais eram tamanhas que o estado novo implantou o regime de racionamento, senhas pala os bens alimentares e outros de primeira necessidade, sendo rigorosamente punidos todos aqueles que transaccionassem esses bens de forma clandestina. Fora implantado um regime de terror, de delação, os “bufos” multiplicavam-se e a troco de alguns centavos acusavam os próprios amigos e familiares que a tal eram induzidos e incentivados.
As tabernas do Camões e do Faustino ainda hoje existem na Fonte da Telha, com o aspecto modernizado que os tempos são outros, mas situam-se nos lugares de outrora. A Tasca do Faustino mais a sul mesmo junto à colónia piscatória. Pela manhã ainda por lá se “mata o bicho” com um copo de aguardente que a friagem é muita. E no regresso da faina ali se conversa acerca do mar.
O actual restaurante O Camões mais recuado em relação à linha do mar, mais próximo da falésia. Ficava no caminho por onde desciam os recoveiros da Charneca que vinham comprar o pescado que depois transportavam em cabazes feitos de cana para venderem em Almada e até em Lisboa.
Notas:
(1) Alexandre Cabral, considerado o maior estudioso da vida e da obra de Camilo Castelo Branco, no seu romance “Fonte da Telha” descreve de forma soberba a vivência dos pescadores na primeira metade do século passado (edição: Lisboa, 1949)
(2) A minha amiga .Lis do blogue Flor de Lis num seu comentário incentivou-me a que descrevesse um pouco mais o que sei sobre a Tasca do Faustino, cujos familiares vivos me dão a honra de serem meus amigos.
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domingo, fevereiro 07, 2010
a taberna do faustino

Seu Faustino abriu a porta da taberna. A mulher estava também já levantada, preocupada com a caiação dos quartos, que o filho casava para Outubro.
- Chama o rapaz, anda.
- Coitado, deitou-se ontem tarde. Bem sabes que foi à Charneca falar à namorada. E trouxe o assucar e o azeite.
O homem parou no meio do cimentado, a mão gorda suspensa no acto de abotoar a camisa.
- Cuidado com essas coisas… fora do racionamento… “
do romance “Fonte da Telha”, de Alexandre Cabral, Lisboa 1949
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domingo, janeiro 31, 2010
aldrabas e batentes
ALDRABAS E BATENTES
Designação dada a peças, normalmente fabricadas em metal, com simbologia diversa, colocadas nas portas ou nos portões, e que se destinam a chamar "os da casa" batendo. As aldrabas tem a função acrescida de trancarem as portas.
Contam os mais velhos que era usual este diálogo:
"Truz! Truz"
"Entre! Quem é?"
#01 - batente de "carranca de leão" - góis - 2008
#02 - batente de "cordame náutico" - góis - 2008
#03 - batente de "mão de fátima" - góis - 2008



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quinta-feira, janeiro 21, 2010
a rocha dos namorados
Trata-se de um afloramento natural de granito, cuja forma faz lembrar um cogumelo, mas onde muitas pessoas visualizam, antes, a forma de um útero de mulher, um menir de cerca de dois metros e altura, designado Rocha dos Namorados.
As gentes de São Pedro do Corval, povoação situada a cerca de 500 metros de distância, chama-lhe a Pedra de Casar, pois é uso nela praticar um ritual de fecundidade, ou de casamento nos tempos modernos, pelos que as raparigas solteiras peregrinam em seu destino.
Este menir encontra-se crivado de gravuras megalíticas do tipo “covinhas” e no seu topo centenas de pequenas pedras são testemunho e resultado da prática de um ritual de origem pagã relacionado com o culto da fertilidade e à adivinhação.

Se a pedra lançada não ficar em cima da rocha e cair ao solo significa que tem que esperar mais um ano para a realização do casamento. Se a pedra se juntar a tantas outras que existem no seu topo é garantido o casamento no ano corrente.
Local de idolatria pagã foi cristianizado, como aconteceu em muitas outras situações e ritos, passando a representar um “passo” da procissão de seca que tinha lugar entre a ermida de Nossa Senhora do Rosário e a Aldeia do Mato (hoje São Pedro do Corval).
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segunda-feira, janeiro 18, 2010
as leiteiras
quinta-feira, janeiro 14, 2010
subir no ascensor da glória
Para chegar ao topo desta colina percorria a íngreme Calçada do Carmo, calçada de paralelepípedos basálticos, mais difícil de descer do que de subir, outras vezes as Escadinhas do Duque, dos alfarrabistas e dos regionais restaurantes e, por vezes ainda, utilizando o Ascensor da Glória que até determinada época chegou a ter trânsito automóvel até meio do seu percurso.

Recentemente, à semelhança do que aconteceu com os seus outros irmãos citadinos, Ascensores da Bica e do Lavra e Elevador de Santa Justa, recebeu uma intervenção artística que o tornou ainda mais apelativo.
No percurso das duas cabines do Ascensor da Gloria, uma sobe e a outra desce, há um preciso momento em que ao cruzarem-se ficam em paralelo… é o momento de contrapeso, de equilíbrio, de força e de tensão. Há neste momento uma troca de forças entre as duas cabines do Ascensor. Foi esse facto aproveitado pela artista Susana Anágua para provocar um “flash” de energia, visível através de um conjunto de lentes em vidro “Fresnel” e marcas de tinta florescente pintadas no chão no local de cruzamento.
Uma viagem e uma imagem a não perder...
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domingo, janeiro 10, 2010
cantar as janeiras na charneca de caparica
Supõe-se que as Janeiras estejam relacionadas com os cultos pagãos, desenrolando-se no mês do deus romano Jano, de Janua que significa porta, entrada. Esta figura da mitologia romana, representada com duas caras, encontra-se fortemente ligada à ideia de entrada mas, muito em especial, à noção de transição, de conhecimento do passado e do futuro.

O cantar as Janeiras na Charneca de Caparica perde-se nos fumos dos tempos e da memória, mas estabelece sempre uma estreita ligação entre o mar, ali tão perto, e a actividade das pessoas, mais ligada aos campos, actividade rural, pois o mar era difícil de domar, era “mar macho” no dizer dos pescadores, na grande maioria dos meses do ano, facto agravado pela fragilidade das embarcações de então.
Mesmo juntinho à praia
Continua a ser rural
Conserva em toda a raia
Um belo e extenso pinhal

Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé na escada
Logo o meu coração disse
Aqui mora gente honrada.
Boas Festas, Boas Festas
Boas Festas de alegria
Que as manda o Rei do Céu
Filho da Virgem Maria.
Viva lá senhor ...
Sua cara é de sol
Coberta de diamantes
Com safiras ao redol.
Levante-se lá senhora ...
Do seu banco de cortiça
Venha-nos dar as Janeiras
Ou de carne ou de chouriça.
Viva lá senhor ...
Raminho de bem-querer
Se a sua pipa tem vinho
Venha nos dar de beber.
Acabadas estão as festas
Embora venham os Reis
Vede lá por vossas casas
As Janeiras que nos deis.

As cantorias deste ano foram entoadas pelo grupo do “Cantar as Janeiras”, pertencente ao Clube Recreativo Amigos da Quinta da Saudade e acompanhados pelos populares artistas Simara e Alex que se deslocaram utilizando um autocarro com mais de 60 anos de existência. Aqui fica a letra de um outro cantar que foi dedicado no decorrer do “Cantar as Janeiras” à povoação de Charneca de Caparica:
Charneca, linda Charneca
Charneca de Caparica
Um jardim em cada casa
Mas que bem que te fica.
Charneca, linda Charneca
Charneca de Caparica
Tens p’ra todos um abraço
De amizade muito rica.
Quem passar p’ra outra margem
Seguindo a via do Monte
Tendo atenção à rodagem
Há-de encontrar uma ponte.
Se virar p’ro lado esquerdo
Não tem nada que enganar
O caminho é sempre em frente
E vai mesmo lá parar.
Charneca, linda Charneca
Charneca de Caparica
Um jardim em cada casa
Mas que bem que te fica.
Charneca, linda Charneca
Charneca de Caparica
Tens p’ra todos um abraço
De amizade muito rica.
Há quem chame a esta Vila
O lugar da felicidade
Porque o ar que cá se inspira
Tem sabor a liberdade.
Mesmo juntinho à praia
Continua a ser rural
Conserva em toda a raia
Um belo e extenso pinhal.

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sábado, janeiro 09, 2010
cantar as janeiras na aldeia
Por aqui e por ali andámos e com a ajuda do S. Pedro que durante algum tempo “mandou” que a chuva fosse cair a outras terras que destes usos e costumes estão alheias, cumprimos o destino traçado aos andarilhos, aos caminhantes e aos nómadas dos sentires na boa companhia de quem nos quer bem, no festejar de um petisco acompanhado com tinto de boa cepa.

Boas Festas, Boas Festas
Boas Festas vimos dar
Venham-nos dar as Janeiras
Se nos as quiserem dar
Estas casas não são casas
Estas casas são casinhas
Tantos anos viva o dono
Como ela tem de pedrinhas
Levante-se lá senhora
Desse banco de cortiça
Venha-nos dar as Janeiras
Ou morcela ou chouriça
Senhora que está lá dentro
Nesse banquinho de prata
Venha-nos dar as Janeiras
Que está um frio que mata
E “os da casa” lá vinham receber as Boas Festas os desejos de um Feliz Ano Novo e ajudarem a compor a cesta com mais uma garrafa de vinho ou com uma chouriça, e então “de roda” saía mais uma cantoria musicada com ferrinhos e reco-reco e outros instrumentos populares, onde pontuava a concertina e o cavaquinho tocados pelas mãos sabedoras e mágicas de Rita e Vítor Reino, dos Maio Moço…

Ai lé, piro-lé. Ai ló
De noite pelo escuro
Ai lé, piro-lé, ai ló
Bem de certo quer saber
Ai lé, piro-lé, ai ló
Se o seu vinho está maduro
Ai lé, piro-lé, ai ló.
Se alguma mão mais avara nada deixasse na cestinha e testemunhámos que isso não aconteceu, teria que ouvir:
O toucinho é muito alto
A faca não quer cortar
Estes barbas de bagaço
Não têm nada para dar
Lá para as tantas para reconfortar das andanças e dos cantares um convívio de fim-de-festa juntou muitos aldeões que quais reis do Presépio partilharam comes e bebes da tradição.

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quarta-feira, janeiro 06, 2010
a magia da romã
A romã é um fruto envolto em muita fantasia, desde os tempos imemoriais, dizendo-se da magia que nos protege e dá felicidade, tendo cada um dos seus componentes um efeito especial. Desde as varas da romãzeira, árvore das romãs, até aos bagos do fruto, passando pelas flores e pela sua casca, todos os elementos representam na tradição popular, fontes de magia e de encantamento.
A romãzeira é uma árvore, normalmente, de porte reduzido mas muito vistosa, donde pendem os frutos cuja Natureza lhe concedeu um terminal em formato de coroa real. Não é estranho, pois, que à volta de este fruto muitas lendas e tradições se tenham criado com o passar do tempo.
Conta a tradição que a romã era utilizada pelas bruxas para controlarem os seus fogosos cavalos. Também os druidas queimavam varas da romãzeira nos seus ritos de adivinhação para que os espíritos do saber respondessem às suas perguntas, esclarecessem suas dúvidas.
A romã e a romãzeira são usadas na sua totalidade em benefício do ser humano. O chá preparado com a casca do fruto é usado em gargarejos para curar aftas. As folhas da romãzeira cozidas dão um excelente colírio para lavar os olhos quando inflamados. As flores em infusão usam-se para aliviar cólicas intestinais e para combater inflamações nas gengivas.
Na magia branca, a casca da romã deve ser comida para aumentar a fertilidade. Se for seca, pode ser adicionada ao incenso para atracção de riqueza e de dinheiro. Nas artes da adivinhação os “especialistas” conseguem “ler” nas bagas da romã. O suco da romã substitui o sangue ou a tinta mágica nos rituais de iniciação.
A romã é considerada o fruto mágico da sorte, muito utilizada, hoje em dia, nas festividades de final de ano. É costume formular-se um desejo antes de comermos cada uma dessas sete bagas (sempre sete!) para que sejam satisfeitos o ano que se vai iniciar.
Dá fortuna e bem-estar guardar de ano para ano um pequeno saco de linho com uma coroa da romã, um pedaço de pão e uma moeda de meio-tostão, agora uma moeda de 1 cêntimo, a mais pequena de todas.
Ao “cancioneiro popular” fomos buscar esta toada:
“Fui colher uma romã
Estava madura no ramo
Fui encontrar no jardim
Fui encontrar no jardim
Aquela mulher que amo.
Àquela mulher que amo
Dei-lhe um aperto de mão
Estava madura no ramo
Estava madura no ramo
E o ramo caiu ao chão.”
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