quarta-feira, junho 23, 2010
lavar a roupa na praia
Era nesse improvisado “poço” onde colocavam uma pedra plana que lavavam a roupa da semana que depois era posta a corar no cimo de um medo que sempre tinha alguma cobertura arbustiva.

pedra para lavar roupa na praia
In "Charneca de Caparica - Estórias da sua História
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sábado, junho 12, 2010
ti maria úrsula parteira
A existência do continente Atlante ou Atlântida onde viveu um povo tecnologicamente muito avançado e de uma faustosa riqueza, pacífico e sem pobreza, aflora em determinadas circunstâncias ao sentir do povo quando confrontado com situações extraordinárias.
Contou a própria Maria Úrsula, afamada parteira da Charneca de Caparica, a alguém que tal nos transmitiu que certa noite de Inverno em que se ouvia o marulhar forte do mar para lá da rocha lhe bateram à porta. Quando abriu, um homem vestido a rigor e de chapéu alto, tendo na mão uma candeia donde saía intensa luminosidade, solicitou-lhe que se deslocasse junto duma parturiente a quem tinha “chegado a hora”. Seria bem recompensada por tal.
Assim fez a Maria Úrsula que seguiu numa elegante berlinda que a aguardava puxada por um elegante cavalo alazão. Chegada à Descida das Vacas, para onde se haviam dirigido, uma lapa de que nunca se tinha apercebido existir abriu-se na rocha por onde a berlinda entrou.
Corredores amplos e muito iluminados cobertos de ricas tapeçarias foi o caminho seguido pela berlinda até ao local em que se encontrava a parturiente já em pleno trabalho de parto. Maria Úrsula “aparou” o recém-nascido com todo o seu saber tendo recebido muitos agradecimentos e retribuições. Regressou na berlinda a sua casa.
Nunca mais conseguiu saber o local exacto onde a lapa se terá aberto por muitas vezes que por lá tenha voltado a passar.
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terça-feira, junho 08, 2010
os cabazeiros
Este trabalho de artesão que se realizava no seio de um número reduzido de famílias charnequenses – a dos “Rego”, a dos “Talego” e poucas mais – ganhou dimensão significativa e importância no rendimento familiar quando os cabazes começaram a ser vendidos para Lisboa, para os laboratórios da indústria farmacêutica que os utilizavam como embalagem dos medicamentos para exportação.
Teve tamanha importância local que a empresa “Camionetes Piedense” que servia transportes públicos à população da Charneca com ligação a Cacilhas resolveu colocar depois de 1953 neste percurso o carro 29, uma Berliet carroçada em França e que dispunha de uma ampla bagageira no tejadilho adequada ao transporte dos cabazes.
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segunda-feira, junho 07, 2010
as colmeias da charneca
“Postura que nenhuma pessoa não arranque, nem corte matto nem cepa, nem esteva dois tiros de besta ao redor das cilhas em que estiverem colmeyas.
Acordarão os ditos officiais e homens bons e puzeram por postura que por verem o grande dano que se fazem nas colmeyas por cauza de ao redor das cilhas aonde ellas estão se arrancar cepa de esteva, e cortar matto pella qual razão vão as ditas colmeyas em muita diminuição e ha muitas menos das que antigamente havia na Charneca do termo desta villa o que he em grande prejuizo dos moradores, e muito grande dano que se recebe nas ditas colmeyas querendo a isso prover mandarão que daqui em diante nenhuma pessoa corte matto, nem arranque cepa, nem esteva dois tiros e besta, ao redor donde estiverem cilhas que tenhão colmeyas que passe de oito cortiços povoados sob penna do que o contrario fizer e se lhe provar ou for achado cortando, ou arrancando cepa, esteva, ou matto por cada ves mil reis e da cadeya, a metade para o concelho e a outra para quem o accuzar”.
A Charneca, mais tarde Charneca de Caparica, situava-se no termo geográfico da Vila de Almada e o seu nome tem origem, sem dúvida, no facto de ser um ermo exposto ao sol forte de Verão, onde se situavam dispersas algumas quintas e um ou outro casal.
Quase todos os casais possuíam nas suas terras alguns cortiços, forma tosca de colmeia, de onde obtinham o mel, o melhor adoçante que poderiam encontrar para as malgas de café, base do almoço, como então se dizia da primeira refeição do dia.
É uso dizer-se que o mel é “gostoso e vitaminoso”. Saboreia-se todo o ano, embora muitos somente dele se lembrem nas noites frias de Inverno. É um mel de grande qualidade, por vezes com aromas de rosmaninho, de tomilho e de urze, mas é de um modo geral multiflora, pois as abelhas vão colher o pólen ao funcho, ao trevo, à acácia, ao eucalipto e ao cardo, ficando o mel com uma tonalidade dourada muito clara.
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quarta-feira, abril 07, 2010
as margens do rio
as gentes e as terras, Os usos e os costumes.
almada beija com ternura o tejo amante, Com quem desde há milhões de anos mantém uma doce cumplicidade. aqui o contacto é mais íntimo, Almada permite que as águas se espraiem nas suas entranhas. ali almada torna-se altaneira mira o tejo de cima, Mas vai-lhe piscando o olho. em conversas que somente aos dois dizem respeito, Que somente os dois entendem. a aproximação a almada vindos de Lisboa, Num cacilheiro que acaricia as águas do rio é um momento inolvidável. calma tranquilidade transparência, Apetece respirar fundo encher o peito de um ar puro que almada oferece a quem a visita. cacilhas ginjal boca do vento, O passeio ribeirinho elevador panorâmico e muito em especial gente afável e hospitaleira. que de forma incomparável souberam acolher reis, E princesas nos momentos em que lisboa lhes foi agreste.
a tasca do cão, A casa da cerca de dom João Portugal.
o pátio do prior, Do crato teria que ser. sobranceiro ao rio a olhar o cristo-rei de construção mais recente, Está a casa da cerca senhorial de joão de Portugal. quem és tu?, Ninguém. E caminhando para o interior, Depois do pragal e do monte onde viveu bulhão pato. lembram-se dos contos do monte?, E do digressões e novellas?. vem a charneca imensa das quintas da realeza, E doutros nobres menos reais que aí encontraram espaço de tranquilo estar. caçarias e cavalhadas, Caminhos abertos no mato para mais tarde ser serventia de recoveiros e carreiros em montadas de muares. na rota dos recoveiros, De sesimbra à charneca correria de muares. por aqui também ficaram por longas temporadas, Os monges e os noviços em espaço de meditação. mais perto dos seus deuses que os vinham inspirar, Missionários viveram estudaram aprenderam saberes de evangelização para no brasil irem pregar. daqui saíram os que seriam “40 mártires”, Que deram nome a uma quinta que era um vale rosal. e depois o mar, Esse eterno e cúmplice companheiro de quem o sabe amar.
é diferente o respirar do ar puro, E o beber da água cristalina tal como corre das fontes. ou que que se encontra nas minas, Poderia ser directamente bebida da nascente. como se perante as águas alpinas estivéssemos, Que dos gelos eternos vêem junto das gentes que nelas se dessedentam, e aqui mais para o interior a mancha imensa de verde colorida, A mata dos medos. o pinhal d’el rei, Por merecimento dado o nome pelo monarca em cavalgadas de caça. mantilhas de cães, A sentirem a real liberdade das loucas correrias pelos matos que acoitam a caça desejada. e as gentes laboriosas, Sofredoras mas resistentes que na primeira linha souberam estar ao alvor dos sentires republicanos. republicanos antes mesmo da implantação da república, Lutadores pela solidariedade e igualdade entre os seres humanos.
pelos caminhos e carreiros, Pelas veredas de silvados ladeadas. convergiam gentes crentes no pagamento duma promessa, Que as colheitas fossem fartas em campos férteis de húmus. que os homens do campo que à faina da pesca iam em tempo de mais calmaria, Feitos pescadores. voltassem escorreitos desse mar, Ora mar de seda de damas. logo depois mar macho, Como dizem os homens da borda d’água. nos caminhos da devoção senhora do cabo, Lá nas terras do longe espichel barbárico promontório.
vinham da margem esquerda do tejo, Terras da Trafaria. vinham da brisa do oceano, Da costa do pescado mais tarde de Caparica. que caparica era nos montes, E pela charneca fora árida e seca. das quintas da nobreza, De outras de padres missionários. ou somente à meditação e ao estudo dedicados, Juntavam-se na quinta de monserrate das anuais festividades charnequeiras. ou charnequenses, E caminhavam pela azinhaga onde alguém colocou uma placa toponímica “dos sírios”. rumo ao pinhal de valle de cavala, Mata dos medos e apostiça. a azóia, Local da lendária pernoita do homem de alcabideche e da mulher da Caparica. da charneca, Que a imagem da devoção por eles aguardava no cabo.
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terça-feira, fevereiro 23, 2010
o pinhal dos receios, ou a história das luminárias dentro da mata
Eram caminhos estreito por onde transitavam burros e cavalos de carga e alguns carros puxados por essas alimárias. Eram usadas mais pelos recoveiros [2] e gentes de posses, pois a população em geral fazia estas ligações de vários quilómetros a pé, seguindo por veredas e atalhos que o uso ia marcando por entre o mato e os pinhais.
Porque esta região era de “puros ares” e as terras de forte potencial agrícola, especialmente árvores de fruto e vinha, muitos foram os nobres que por dádiva real aqui construíram as suas quintas [3], de veraneio ou mesmo de residência principal, o mesmo acontecendo com algumas ordens religiosas [4] que consideravam estas terras vocacionadas para a oração e para a meditação.
Na Charneca de Caparica, para sul do Marco Cabaço, as terras eram arenosas e praticamente intransitáveis. A cobertura botânica era constituída por mato e outras plantas arbustivas, como seja a aroeira que deu nome à zona, por pinheiros bravos e mansos e por amplas zonas de juncal. Aqui e ali despontavam medronheiros [5], cujos frutos deliciavam os passantes.
Esta zona era praticamente inabitada, sendo muito poucas as pessoas com coragem para entrar em zona tão erma, sobre a qual se contavam histórias ou lendas de maus encontros, de lobisomens que apareciam em noites de lua cheia nos cruzamentos [6] ou mesmo de foragidos da lei que aqui se acoitavam protegidos pelo denso matagal.
Contudo, quem se atrevesse a percorrer o pinhal na calada da noite, apercebia-se, aqui e ali, o tremelicar de uma luz, normalmente candeia de azeite ou de petróleo, vinda de algum barraco construído na mata e onde viviam as famílias menos abastadas, muito abaixo do limiar da pobreza. As gentes da Charneca de Caparica conheciam-nos por “toupeiras” [7] pois à aproximação de estranhos fechavam-se dentro de casa e não se deixavam ver.
A Mata dos Medos [8], também conhecida por Pinhal do Rei, o plantio de pinheiros teria sido mandado fazer pelo Rei D. João V, por forma a “segurar” as areias em movimento, era lugar de difícil acessibilidade onde se acoitavam bandidos e outros foragidos da lei. A própria Guarda tinha dificuldade em entrar nas zonas mais recônditas do pinhal.
Esta mancha verde, autêntico pulmão com que a Natureza brindara a Margem Sul do Tejo, prolongava-se para lá da Lagoa de Albufeira, na direcção de Sesimbra e do Cabo Espichel, conhecido pelos antigos como Promontório Barbárico, pelas Herdades da Aroeira e da Apostiça. Para poente chegava ao areal, à época de enorme extensão e de altaneira linha dunar.
Contam os mais antigos que depois do pôr-do-sol somente entrariam no Pinhal do Rei aqueles que, pela confiança que neles tinham os foragidos, possuíssem o chamado “salvo conduto de palavra” [9], código de “honra”, senha e contra-senha que deveria ser dita a quem interpelasse os forasteiros.
Também havia um dia determinado da semana, a terça-feira, em que era permitido ao Povo, a viver em profunda penúria, colher lenha da mata nacional, lenha seca sem magoar os pinheiros, para ser utilizada para as lareiras e para o “fogo de cozinhar”. Famílias inteiras reservavam esse dia para a recolha de lenha, pois o excedente às suas necessidades de utilização sempre representava com a sua venda uns centavos adicionais para o magro orçamento familiar.
No tempo das pinhas, aproveitava o Povo esse dia para colher pinhas que, vendidas para Almada ou para Lisboa, e mesmo nas quintas da região representavam um acréscimo aos seus parcos rendimentos. Somente estavam autorizados a recolher pinhas secas, mas de forma furtiva sempre recolhiam pinhas de pinheiro manso, pois os pinhões já eram, nessa época, pagos a bom preço.
Notas
[1] – Massa de barro, muitas vezes misturada com palha, que depois de seca ao sol, especialmente no formato dos actuais tijolos, era utilizada como material de construção.
[2] – Os recoveiros, ou almocreves, eram peças fundamentais no comércio e transporte de mercadorias, alugavam ou trabalhavam com animais de carga.
[3] – No território que constitui hoje a Charneca de Caparica e no seu termo poderemos encontrar, entre outras, Quinta e Solar de S. Macário, Quinta da Regateira, Quinta de Monserrate, Quinta de Cima, Quinta da Carcereira.
[4] – De acordo com o Dicionário Geográfico escrito pelo padre Luís Cardoso existiram três conventos no termo de Caparica: o Convento dos Religiosos de S. Paulo, e que é orago N. S. da Rosa, fundado em 1410; o Convento dos Religiosos Arrabidos, dedicado a N. S. da Piedade, fundado no ano de 1558; e o Convento dos Religiosos Agostinhos Descalços, de que é padroeira N. S. da Assunção, fundado no ano de 1677.
[5] Ainda hoje fazem parte da mancha arbustiva, sendo um aliciante para quem caminha na mata em tempo de maturação dos frutos, os medronhos.
[6] – Hábito que se não perdeu, antes intensificou com a chegada de muitos imigrantes brasileiros, a prática de macumba deixa evidências para quem percorre a mata pelas manhãs: garrafas de bebidas alcoólica, velas vermelhas e muitos outros elementos característicos da prática de tais ritos.
[7] – Contam os mais antigos da existência de um clube “Os Toupeiras” que realizavam bailes frequentados pelas gentes do lado sul da Charneca de Caparica e por quem vivia em casebres no interior da mata. Quando se chegavam rapazes vindos de Palhais ou do Botequim eram frequentes grandes cenas de pancadaria.
[8] – A designação de Mata dos Medos tem origem no facto de parte da mesma se encontrar implantada em grandes elevações de terreno arenoso junto ao litoral conhecidas por “medo” ou “médão”.
[9] – O “santo e senha” que ainda há pouco uma senhora de Sobreda me referiu que o pai havia sido detentor para poder entrar na Mata dos Medos.
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segunda-feira, fevereiro 01, 2010
os nomes que lhes dão
Subida íngreme que vinha cruzar com a então designada “estrada militar” e a que os populares chamavam “descida das vacas” designação que ganhou raízes, foi oficializada, fazendo hoje parte das designações encontradas na cartografia mais pormenorizada. Mas também muito perto está uma vereda a que chamam o “caminho das figueiras” e mais além o local conhecido por “mina”, de uma mina de oiro, “Adiça” já referenciada no tempo do Império Romano.
É curioso de analisar o facto de que as gentes davam nomes a sítios e coisas de uma forma sentida e forte, telúrica mesmo, coisas que a terra continha, que nasciam da terra, que viviam da terra, enriquecendo-a. Quantos milhares de vacas não terão descido (e mais difícil, subido) por aquela íngreme ladeira até delas recolher o nome? Era pura transumância de gado e gentes na procura de alimento e de algum rendimento.
Uma ligação estreita entre as gentes que trabalhavam os campos, agricultores, pastores, proprietários, rendeiros e aqueles que diariamente se afoitavam mar adentro nas artes piscatórias que haviam para aqui trazido de regiões do norte, como Ílhavo, por exemplo, ou do sul, das costas algarvias e do sudoeste alentejano.
Estes caminhos foram estradas romanas, quando os imperiais invasores se deslocavam para a pesca e para a exploração das minas auríferas; Foram caminhos reais, D. João V mandou plantar pinheiros mansos na zona dos medos de forma a segurar as areias e D. João VI percorreu estes caminhos nas suas caçadas e para degustar uma saborosa caldeirada; Foram caminhos de peregrinos que anualmente os percorriam integrados nos Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel, que se realizavam no promontório barbárico.
São caminhos da tradição, são rotas do nosso imaginário cultural.
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quinta-feira, janeiro 28, 2010
as colmeias da charneca
“Postura que nenhuma pessoa não arranque, nem corte matto nem cepa, nem esteva dois tiros de besta ao redor das cilhas em que estiverem colmeyas.
Acordarão os ditos officiais e homens bons e puzeram por postura que por verem o grande dano que se fazem nas colmeyas por cauza de ao redor das cilhas aonde ellas estão se arrancar cepa de esteva, e cortar matto pella qual razão vão as ditas colmeyas em muita diminuição e ha muitas menos das que antigamente havia na Charneca do termo desta villa o que he em grande prejuizo dos moradores, e muito grande dano que se recebe nas ditas colmeyas querendo a isso prover mandarão que daqui em diante nenhuma pessoa corte matto, nem arranque cepa, nem esteva dois tiros e besta, ao redor donde estiverem cilhas que tenhão colmeyas que passe de oito cortiços povoados sob penna do que o contrario fizer e se lhe provar ou for achado cortando, ou arrancando cepa, esteva, ou matto por cada ves mil reis e da cadeya, a metade para o concelho e a outra para quem o accuzar”.
A Charneca, mais tarde Charneca de Caparica, situava-se no termo geográfico da Vila de Almada e o seu nome tem origem, sem dúvida, no facto de ser um ermo exposto ao sol forte de Verão, onde se situavam dispersas algumas quintas e um ou outro casal.
Do texto também se induz a existência de algumas explorações apícolas na região que era importante preservar e de que ainda existem vestígios, mais de 300 anos passados, especialmente na zona do Cabo da Malha, em plena Mata dos Medos, onde é produzido mel de um paladar esquisito.
A referência às cepas indica, igualmente, a existência de uma produção tradicional na região, de que ainda existiam vestígios há cerca de 20 anos. Trata-se da produção vinícola, a partir de uvas de vinhas locais, que pela sua qualidade e grau alcoólico era muito apreciado em Almada, onde uma taberna de estilo anunciava todos os anos: “Vinho Novo da Charneca”. E esgotava em pouco tempo.
Uma última referência, esta generalizada a todo o Portugal de então, o elevado hábito delator da população por mor do qual obteria alguns rendimentos suplementares.
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quarta-feira, janeiro 20, 2010
o pequenino morcego
Acompanha-me nas minhas caminhadas nocturnas no passeio das cadelinhas ou quando vou colocar o lixo no respectivo latão, em voos rasantes, em círculos, que são uma forma muito própria de comunicação.
Pequenino mamífero, por muitos hostilizado, sente que gosto dele e da sua companhia e, portanto, "gosta igualmente de mim”. Companhia habitual ao longo dos meses e meses, uma noite fez-me uma surpresa.
Apresentou-me a companheira. A partir daí as minhas caminhadas nocturnas passaram a ser acompanhadas por dois pequenos mamíferos voadores.
Algum tempo volvido voltou só, coisas da vida, e assim tem continuado, noite após noite, mostrando a sua sombra esvoaçante provocada pela iluminação pública ou pelo reflexo da Lua naquelas noites em que cheia se encontra.
Outras vezes é mesmo uma aproximação directa. Sinto então a vibração das suas membranas que mais parecem asas de passarinho. Tal tem acontecido com muita frequência nos últimos dias. Dei comigo a pensar: _Será que este pequeno morcego tem algo a comunicar-me? _Que mensagem me quererá transmitir?
Depois tudo entendi. Quem, na verdade, algo tinha a comunicar era eu. Ele teve essa percepção extrasensorial.
Bastou pensar que ele entendeu: _Morceguinho, vou faltar alguns dias a este nosso encontro, mas irei voltar em breve!
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quarta-feira, janeiro 13, 2010
a leitura dos sinais
Olhando para Nascente poder-se-á encontrar a explicação, mesmo que parcial seja, pois o firmamento apresenta-se de negro profundo, indicativo de chuva forte, quiçá de trovoada que transformará o final de tarde em momentos de tormenta.
A intensidade e a frequência dos estridentes guinchos, quem diria que dos mesmos bicos nascem em tempos de bonança maviosas sonoridades, aumentam a cada momento. Os voos são cada vez mais rápidos, numa retirada extemporânea e apressada.
Curiosamente do lado Poente, lá em baixo espraia-se o mar azul que vindo da linha do horizonte vem beijar as doiradas areias das praias, o céu está azul e sem nuvens. Isso leva a que a luminosidade do fim de tarde seja muito estranha, contrastes fortes de tonalidades de cor e marcados espaços de preto e branco.
De súbito deu-se uma brusca acalmia meteorológica e, do mesmo modo, da agitação dos melros. Estes últimos haviam encontrado os seus ninhos onde se acolheram. Passados instantes foi a violência do temporal que tomou o lugar da acalmia momentânea. O sentido apurado das avezitas tinha evitado danos maiores.
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quarta-feira, novembro 25, 2009
água santa da fonte
Refere-se a “Corografia” nestes termos “Na cerca tem uma fonte com o nome de Nª Senhora da Rosa, cuja água é milagrosa e tem a virtude de curar a lepra”. A gente mais antiga ainda hoje lhe chama a “Fonte Santa”. A Fonte de Nª Sª da Rosa foi, igualmente, conhecida como Fonte do Esteiro ou Mina de Santa Luzia.

A “Corografia” (1706 :318) refere: “Não consta do ano em que se fundou este convento, mas só sabemos que no ano de 1413, já era habitado por eremitas”. E a citada “Corografia” informa ainda: “foi tanta a devoção e amor, que tinham a este convento, que as mais qualificadas de sangue o elegeram para sua sepultura. A Capela-Mor que é de bastante arquitectura, é de D. Ana de Ataíde, que a mandou fazer para seu enterro, e de seu marido D. Jorge de Abranches, aonde os sepultaram no ano de 1575”.
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segunda-feira, novembro 09, 2009
água dos casais da charneca
Nos indicadores geográficos da Península de Setúbal [http://www.setubalpeninsuladigital.pt] das oito fontes de águas minero-medicinais referenciadas, quatro situam-se no Concelho se Almada: Fonte do Paraíso (Caparica); Fonte dos Casais da Charneca (Charneca de Caparica); Fonte da Pipa (Cacilhas); e Fonte da Telha (Caparica).
A “Corografia” (1706) refere a existência de três fontes de água minero-medicinais todas situadas num profundo e verdejante vale, o Vale da Rosa, onde corre um ribeiro que actualmente (2009) serve de fronteira natural entre as freguesias de Monte de Caparica e de Charneca de Caparica, o que pressupõe, desde logo, a existência no local de importante sistema aquífero que em tempos serviu para captação das águas para abastecimento público da Charneca de Caparica.
As fontes referidas são as Fonte da Telha, cujas águas são indicadas para o aparelho digestivo e rins (Contreiras, 1951), Fonte de Nª Sª da Rosa, com água considerada milagrosa na cura da lepra e a Fonte dos Casais da Charneca, cuja água chegou a ser explorada comercialmente com a designação de Água de S. Vicente e vendida em garrafões de cinco litros (em 1945, 1.018 garrafões e em 1946, 3.032 garrafões).
As referências às águas minero-medicinais da Charneca de Caparica são muito antigas podendo ler-se menções à Fonte de Nª Sª da Rosa na “Corografia” (1706) e no “Aquilégio” (1726) como pertencente à cerca do convento do mesmo nome, da Ordem dos Religiosos de S. Paulo, que não estando determinada a data da sua construção, sabe-se ser já habitado por eremitas no ano de 1413. Refere-se a “Corografia” nestes termos “Na cerca tem uma fonte com o nome de Nª Senhora da Rosa, cuja água é milagrosa e tem a virtude de curar a lepra”. A gente mais antiga ainda hoje lhe chama a “Fonte Santa”.
Quanto à água da Fonte Casais da Charneca, depois de ser utilizada de um poço aberto para fins agrícolas, foram nelas reconhecidas capacidades curativa, tendo sido analisada (Rego, 1922) por um funcionário do Instituto Central de Higiene, tendo-a considerado cloretada sulfatada sendo, posteriormente, de novo analisada (Carvalho, 1945) e considerada “a água dos Casais da Charneca é fria, hipossalina, cloretada sódica e bicarbonetada cálcica. De reacção alcalina, levemente sulfatada e fracamente radioactiva”. Acrescentando, ainda, “a água dos Casais da Charneca é muito pura atestando a excelência da captagem”. A comercialização da água da Fonte dos Casais da Charneca terá terminado no fim da década de 1960, por falecimento do seu último proprietário, Armando da Costa Lima.
Quanto à Fonte da Telha, que de topónimo semelhante nada tem a ver com a aldeia piscatória localizada a sul do concelho de Almada, é por certo uma outra emergência do mesmo aquífero, na escavação de um declive de terreno, tendo assim sido denominada por correr a água por uma telha ali colocada. É água muito procurada pelos populares pelos seus efeitos digestivos. Um utilizador desta água afirma “Esta água tem muita argila, eu dou-me bem com ela, como é água de nascente dá muito boa disposição. Agora já há uns tempos que cá não vinha. Mas por exemplo às vezes tinha assim uma azia de estômago e bebia e passava logo.”
À conversa com o Sr. José Mateus da Silva (7/11/2009), de 70 anos, ribatejano a viver há cerca de 40 anos na Charneca de Caparica, recorda-se perfeitamente da existência de quatro poços, o primeiro no território da freguesia da Charneca de Caparica e mais três na freguesia de Caparica, no caminho pedonal para Vila Nova.
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sábado, novembro 07, 2009
dançar em charneca de caparica
“Vimos há tempos um rancho folclórico de determinada região dançar o nosso “Tacão e Bico” que, decerto, alguns, embora poucos, velhos ainda se recordam, de o ter dançado ou dele ter ouvido falar. Essa dança é deveras engraçada. Os cavalheiros e as damas, ao compasso da música, batem ao mesmo tempo, no chão, com o salto e depois com a biqueira do sapato ou bota. Essa dança, tão difícil de dançar e tão trivial na nossa terra, deu um salto ao Ribatejo, e hoje é desconhecida na Caparica. O mesmo sucede com a “Polca” e, em especial, a que se dançava na Charneca de Caparica: “Polca Janota”. Para a dançarem, era preciso saber e muito treino, pois esta polca pelo esforço que era necessário fazer, requeria boa constituição física.”
Quando vim nos primeiros tempos para Charneca de Caparica, a férias ou para passar o fim-de-semana, já se não dançava em Charneca de Caparica, terra que no passado fora terra de dançar.
Na verdade, o seu Povo dividia a actividade entre a faina do mar, dirigindo-se para isso para a Fonte da Telha, em cujas companhas se integravam, ou nas tarefas do campo e da mata, especialmente, como lenhadores e carvoeiros. As actividades de trabalho que praticavam eram propícias à dança.
Em 1975, a Dona Emília, minhota radicada na Morgadinha, no termo de Charneca de Caparica criou um grupo de “danças e cantares” que recuperou para a Charneca de Caparica a tradição de dançar, facto de grande importância para a cultura da região.
Na região de Charneca de Caparica dançava-se o “Tacão e Bico” em tempos passados, hoje somente recordado por escritos, pois os mais velhos já se não lembram de o dançar e, tão pouco, de dele terem ouvido falar.
Era uma dança muito engraçada, viva e ousada, em que os cavalheiros e as damas, ao compasso da música, batem ao mesmo tempo no chão, ora o salto ora a biqueira do sapato ou da bota.
Originária da zona interior da Caparica, foi levada para terras do Ribatejo, onde hoje é dançada, enquanto por aqui está quase esquecida.
O mesmo sucede com a “Polca”, especialmente, a “Polca Janota” outrora dançada pelos bailadores e bailadeiras de Charneca de Caparica.
Para a dançarem, os bailadores deveriam possuir destreza e preparação física bem desenvolvidas pois era uma dança muito exigente, pela sua vivacidade e expressão corporal.
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terça-feira, novembro 03, 2009
o mágico alvorecer o de hoje
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quinta-feira, agosto 27, 2009
um burro como dote
Ia crescendo conforme acontecia ao mancebo e ser-lhe-ia muito útil para conseguir “fugir” um pouco à dura labuta dos campos. A melhoria de vida que os seus pais lhe tentavam dar estava em deixar de trabalhar os campos sol-a-sol o poderem dedicar-se às tarefas de almocreve.
A burra era de grande utilidade para dos pinhais circundantes à Charneca de Caparica transportarem lenha e pinhas secas e, nos dias em que tal era autorizado, trazer o “pico” para com ele fazerem as camas para o gado.
No Pinhal do Rei pagava-se uma licença às terças-feiras para colher as ramadas secas dos pinheiros e às quintas-feiras para a apanha do “pico”, designação dada à caruma seca dos pinheiros.
Em pleno mundo rural, ensaiavam-se os primeiros passos para um sector terciário, onde os jovens mancebos que tinham tido a benesse de receber uma burra à nascença, depois de cumprido o serviço militar, passavam a trabalhar, furtando-se às agruras dos trabalhos do campo.
Eram os almocreves, os carreiros e os recoveiros que se tornaram famosos pelas suas viagens até Sesimbra e para Cacilhas.
Almocreves = homens que alugavam e conduziam animais de carga utilizados para o transporte de mercadorias.
Carreiros = Homens que dirigiam um carro de bois
Recoveiros = Homens que transportavam mercadorias, bagagens, mediante pagamento, utilizando animais de carga.
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domingo, julho 26, 2009
minha terra é meu sentir
Na minha terra, adoptiva podem muitos dizer, que eu afirmo ser do coração, habituei-me a conhecer os sítios e as gentes. Como os sítios se desenvolveram ao ritmo das civilizações, tantas vezes contrariando aquilo que sentimos ser o desígnio telúrico, mas seguindo o ritmo dos tempos. As gentes, conhecendo as suas origens, os seus anseios, a evolução do pensamento, tantas vezes com falta de genuinidade.
Resulta tudo isto de uma globalização que muito tem de financeira e económica e tão pouco de solidariedade; Duma pressão constante dos “média” que formatam os pensares ao jeito das classes dominantes; Dum permanente apelo à competitividade que destrói, muitas das vezes, os mais profundos laços de amizade e de fraternidade.
Tenho uma paixão pela minha terra somente comparada à que tenho pelas mulheres “tous les femmes sont belles”, pelas flores silvestres e de jardim e pelos meus entes mais queridos. Admito que tal sentir por vezes me tolde a razão e me leve a perdoar alguns defeitos que tem e que eu não encontro.
Mas esta paixão de mais de 30 anos pela minha terra é fruto de a ter sentido crescer, evoluir, ser cada vez mais bela, por dentro e por fora, alegrando o meu olhar a cada pormenor que todos os dias descubro no seu todo.
A minha terra tem o mais belo céu azul de todos o universo, o mar mais cúmplice que do azul água ao mais profundo esverdeado, já lhe encontrei tonalidades de lilás, deixa transparecer todos os seus sentimentos, um rio de sonho que traça esses no seu caminhar até se diluir no mar adoçando-o, tem uma frondosa mata de verde pintada que extasiou reis e rainhas, príncipes e princesas, e o Povo que nela encontrou o seu sustento.
E tem a Lua… crescente, levantina como hoje está e que me traz das terras do sul olhares profundos de moiras encantadas e afecto em açafate de aromas de cores de sabores no braço da Sherazade dos tempos modernos que caminha com requebros sensuais músicas de magia.
Sou nómada dos caminhares e sentires, percorro veredas do mundo sem parar, pisco o olho aos saberes e também ao sabores mas não troco a minha terra por nenhuma outra, porque a minha terra tem GENTE! Que soube construir um património ímpar, a cultura da solidariedade...
[vivo na Charneca de Caparica, concelho de Almada, à beira do Mar Atlântico, com o Monte da Lua à minha direita e o Barbárico Promontório à minha esquerda]
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sábado, janeiro 31, 2009
99 anos do centenário
Foi o primeiro movimento revolucionário que teve como objectivo a implantação do regime republicano em Portugal. Iria influenciar, a partir daí, toda a acção política e social do nosso País.
O Clube Recreativo Charnequense, de Charneca de Caparica, concelho de Almada, comemora hoje o seu 99º Aniversário. A esse propósito, tivemos a seguinte intervenção pública:
“Festejamos hoje os 99 anos do centenário do clube recreativo charnequense, Dito assim tem algo de muito vago e redutor, Importa concretizar ainda que não até à exaustão, Tal seria obviamente impossível no espaço de dizer algumas palavras, Que festejamos a colectividade e o colectivismo, Que festejamos os associados e os corpos sociais, Que festejamos os atletas e os mestres que aperfeiçoam o seu desempenho, É verdade, Mas festejamos muito mais.
Pensemos da capacidade de iniciativa, Imaginação, Sonho de três jovens, Que nestas terras do longe resolveram colectivizar-se, Colectivizar a vizinhança e os amigos, José pinho, Francisco pinho, João antónio silva, A unidade faz a força, Primeiro há que resistir, Depois lutar pela mudança, Desenvolver e avançar com alegria em festa, Os tempos eram, São difíceis.
31 de janeiro de 1910 calhou a uma segunda-feira, Dia de árdua labuta para quem se habituou a trabalhar desde tenra idade, Até espantalhos humanos foram para afastar a passarada, Ao alvorecer nos campos de lavoura, Antes de irem à escola, No marco cabaço em palhais no botequim, 31 de janeiro de 1910 calhou a uma segunda-feira.
Festejamos aqui a coragem desses três jovens, Que encontraram na data da fundação desta colectividade, Forma de homenagear, Ideias republicanos que anos antes, Em 1891 explodiram no porto, O capitão leitão e alferes malheiro, O tenente coelho e o actor verdial, Da cultura joão chagas e aurélio paz dos reis. O sampaio bruno e o basílio teles, Também estes jovens foram republicanos antes da implantação da república.
Aqui nas terras do longe, charneca árida e seca, Mais além denso matagal, Os lenhadores gente resistente à dureza dos trabalhos, Os verdes pinos, Onde os homens abriram caminhos, Para recoveiros e carreiros percorrerem da sua utilidade, De levarem bens onde eles são escassos, Mas também caminhos de devoção.
Na rota da senhora do cabo, Quinta de monserrate do encontro, uma lástima de perda patrimonial nesta charneca imensa, Azinhaga onde alguém mandou colocar uma placa toponímica chamando-lhe “dos sírios”, Valle de cavala sobranceiro à arriba fóssil, Mata dos medos, Apostiça, Azóia da lendária pernoita do velho de alcabideche, E da velha da caparica, Que da charneca era natural.
Aqui nas terras do longe, Terras do fim do mundo de então, Foram republicanos dos ideais do 31 de janeiro, Festejaram a implantação da república a 4 de outubro, Este lado do tejo na vanguarda dos ideias de, Liberdade e de solidariedade, Este povo que está tão longe da cidade, Mas que virá a ser memória de grandes feitos acometidos, No sofrimento das vivências de quem era, Foi agricultor e pescador, Na permanente luta no ganho do seu sustento.
Festejamos hoje o Clube Recreativo Charnequense, Colectividade, Associados e corpos sociais, atletas e treinadores, Festejamos a memória dos pioneiros e dos que a seguir vieram, Os seguidores, Festejamos nos 99 anos do centenário as gentes de charneca de caparica, as gentes de almada, As gentes da margem esquerda do tejo, As gentes do colectivismo.”
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domingo, janeiro 11, 2009
esta margem tão diferente
Almada beija com ternura o Tejo com quem desde há milhões de anos mantém uma doce cumplicidade, Aqui o contacto é mais íntimo, Almada permite que as águas se espraiem nas suas entranhas, Ali Almada torna-se altaneira mira o Tejo de cima mas vai-lhe piscando o olho em conversas que somente aos dois diz respeito, Que somente os dois entendem, A aproximação a Almada vindos de Lisboa num cacilheiro que acaricia as águas do Tejo é um momento inolvidável, Calma tranquilidade transparência apetece respirar fundo encher o peito de um ar puro que Almada oferece a quem a visita, Cacilhas Ginjal Boca do Vento O Passeio Ribeirinho Elevador Panorâmico e muito em especial gente afável e hospitaleira que de forma incomparável souberam acolher reis e princesas nos momentos em que Lisboa lhes foi agreste.
O Pátio do Prior, Do Crato teria que ser, Sobranceiro ao rio a olhar o Cristo-Rei de construção mais recente está a Casa da Cerca senhorial de João de Portugal, E caminhando para o interior depois do Pragal e do Monte onde viveu Bulhão Pato, Lembram-se dos Contos do Monte?, Vem a charneca imensa das quintas da realeza e doutros nobres menos reais que aí encontraram espaço de tranquilo estar, Caçarias e cavalhadas caminhos abertos no mato para mais tarde ser serventia de recoveiros e carreiros em montadas de muares, Por aqui também ficaram por longas temporadas os monges e os noviços em espaço de meditação, Mais perto dos seu deus que os vinha inspirar, Missionários viveram estudaram aprenderam saberes de evangelização para no Brasil irem pregar, Daqui saíram os que seriam “40 Mártires” que deu nome a quinta que era um vale rosal, E depois o mar esse eterno companheiro de quem o sabe amar.
É diferente o respirar do ar puro e o beber da água cristalina que na sua maior parte quase não careceria de tratamento, poderia ser directamente bebida da nascente, como se estivéssemos perante as águas alpinas que dos gelos eternos vêem junto das gentes para nelas se dessedentarem, E aqui mais para o interior a mancha imensa de verde colorida, a Mata dos Medos, o Pinhal do Rei, por merecimento dado o nome pelo monarca em cavalgadas de caça, mantilhas de cães a sentirem a real liberdade das loucas correrias pelos matos que acoitam a caça desejada, E as gentes laboriosas, sofredoras mas resistentes que na primeira linha souberam estar ao alvor dos sentires republicanos, Republicanos antes mesmo da Implantação da República, Lutadores pela solidariedade e igualdade entre os seres humanos.
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terça-feira, dezembro 30, 2008
minha terra é meu sentir
Na minha terra, adoptiva podem muitos dizer, que eu afirmo ser do coração, habituei-me a conhecer os sítios e as gentes. Como os sítios se desenvolveram ao ritmo das civilizações, tantas vezes contrariando aquilo que sentimos ser o desígnio telúrico, mas seguindo o ritmo dos tempos. As gentes, conhecendo as suas origens, os seus anseios, a evolução do pensamento, tantas vezes com falta de genuinidade.
Resulta tudo isto de uma globalização que muito tem de financeira e económica e tão pouco de solidariedade; Duma pressão constante dos “média” que formatam os pensares ao jeito das classes dominantes; Dum permanente apelo à competitividade que destrói, muitas das vezes, os mais profundos laços de amizade e de fraternidade.
Tenho uma paixão pela minha terra somente comparada à que tenho pelas mulheres “tous les femmes sont belles” e pelos meus entes mais queridos. Admito que tal sentir por vezes me tolde a razão e me leve a perdoar alguns defeitos que tem e que eu não encontro.
Mas esta paixão de mais de 30 anos pela minha terra é fruto de a ter sentido crescer, evoluir, ser cada vez mais bela, por dentro e por fora, alegrando o meu olhar a cada pormenor que todos os dias descubro no seu todo.
A minha terra tem o mais belo céu azul de todos o universo, o mar mais cúmplice que do azul água ao mais profundo esverdeado, já lhe encontrei tonalidades de lilás, deixa transparecer todos os seus sentimentos, um rio de sonho que traça esses no seu caminhar até se diluir no mar adoçando-o, tem uma frondosa mata de verde pintada que extasiaram reis e rainhas, príncipes e princesas, e o Povo que nela encontrou o seu sustento.
E a minha terra tem GENTE! Que soube construir um património ímpar, a cultura da solidariedade...
[vivo na Charneca de Caparica, concelho de Almada, à beira do Mar Atlântico, com o Monte da Lua à minha direita e o Barbárico Promontório à minha esquerda]
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quarta-feira, agosto 20, 2008
qualidade e moderação
“Vale mais beber um copo de vinho excelente do que ingerir uma maior quantidade de vinho de mais fraca qualidade”.
Beber um vinho de excelência é um acto de bom gosto, desde que feito com moderação, apreciando todas as suas características de aroma, de sabor, de cor e de brilho. Quanto importante é um “final de boca” agradável, por vezes com uma certa adstringência que, sem dúvida, muito irá contribuir para uma boa refeição.
Aliás, há entendidos nestas coisas de vinhos, nós não passamos de modestos amadores, que defendem que o primeiro acto de uma refeição será a escolha do vinho e, só depois, a selecção das vitualhas que melhor “casem” com esse vinho.
A preocupação sobre a qualidade dos vinhos não é coisa nova nem sequer o seu controlo uma “invenção” das entidades de segurança alimentar hoje tão em evidência nos meios de comunicação social. A “nobreza” assim o exige.
Em posturas da Câmara Municipal de Almada datadas do século XVIII, mais concretamente de 1750 [1] fomos encontrar:
“[190]
Postura que toda a taberneira ou qualquer outra pessoa que comprar vinho para tornar a vender a pipa que ahy receber o vinho será afillada e marcada pello juiz do officio desta villa.
Acordaram os ditos officiais e homens bons e puzerão por postura que toda a taberneira ou /fl. 67 v./ qualquer outra pessoa asim desta villa como do seu termo que vinho comprar para vender, a pipa com que mercar o vinho será marcada pello juiz do officio desta villa, e o que o contrario fizer, ou lhe for achada a tal pipa sem a dita marca pagará mil reis e da cadeya e metade para o concelho e a outra metade para quem o accuzar, e a pipa será queimada” .
A propósito do vinho e do beber vinho gosto de retirar sempre do meu baú de memórias uma história simples que para mim foi muito marcante, ao ponte de a recordar quando já passaram sobre ela quase sessenta anos.
Um dia, como acontecia com frequência, fui fazer um recado à minha mãe. Fui à Cova Funda, designação dada à taberna do senhor Silva que ficava a cerca de duas ou três dezenas de metros da nossa casa, comprar uma garrafa de vinho para a refeição dos adultos da casa.
Um cliente habitual do copo de vinho encostado ao balcão corrido de pedra mármore pedia: “Ó Silva, dá-me um copo de três!” Acto contínuo após ser servido deitou a mão ao copo que de seguida caiu e se estilhaçou em mil pedaços espalhando o vinho pelo chão de pedra da taberna.
“Então ó Silva pedi-te um copo de três, deste-me um copo de dois... já tenho a mão feita para a medida, este foi parar ao chão...”
Foi gargalhada geral. O que acontece é que este cliente não seguia a recomendação de que “vale mais beber um copo de bom vinho do que muitos de zurrapa”.
Saber mais:
[1] Posturas da Câmara Municipal de Almada, em 1750, in Almada na História, Boletim de Fontes Documentais, 7-8
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